A PROMESSA DE SIMONE

Parte I — O abandono

Simone nasceu numa pequena propriedade rural nas proximidades de Uruaçu, no norte de Goiás, a cerca de 270 quilômetros de Brasília, região onde mais tarde se formaria o lago artificial de Serra da Mesa. Era a terceira de oito filhos de seu Antônio e dona Mocinha. A família vivia do comércio e de um pequeno sítio, onde cultivava frutas, verduras e legumes.

Sua infância transcorreu entre banhos de rio, frutas colhidas no pé e os cuidados com as galinhas da mãe. Gostava da liberdade da roça, dos passeios pelos arredores e, sobretudo, de fazer as coisas à sua maneira.

Seu Antônio tinha um apreço especial pelos estudos. Aprendera a ler e escrever já adulto, quando tinha uma família para sustentar. Talvez por isso não admitisse que os filhos desperdiçassem a oportunidade que ele próprio não tivera. Acompanhava de perto o desempenho escolar de cada um e incentivava a leitura. Cada livro terminado merecia uma pequena comemoração e alguma recompensa. Era uma maneira de cultivar, dentro de casa, o gosto pelo conhecimento.

A religião também ocupava lugar de destaque na família. Seu Antônio e dona Mocinha eram católicos fervorosos. Aos domingos e dias santos, todos acompanhavam os pais à missa. Antes de dormir, a família se reunia para rezar o terço. O casal tinha um sonho que alimentava havia anos: ver um dos filhos, homem ou mulher, seguir a vida religiosa. Não importava se seria padre ou freira. Bastava que Deus escolhesse alguém daquela família.

A fé, entretanto, vinha acompanhada de uma disciplina severa. Naquela casa, quase tudo podia ser pecado, e discordar de seu Antônio era uma espécie de insubordinação. Sua palavra tinha força de lei. Não havia muito espaço para perguntas, muito menos para contestação.

Simone destoava dos irmãos. Era questionadora, inquieta e pouco afeita às imposições do pai. Desde pequena, demonstrava uma independência que incomodava os adultos. Embora ninguém falasse abertamente, era considerada a ovelha negra da família. Nas conversas reservadas, os pais manifestavam preocupação com a influência que ela poderia exercer sobre os outros filhos. Quanto a Simone, talvez já não houvesse muito a fazer. O importante era evitar que os demais seguissem o mesmo caminho.

Os negócios iam bem, e a família conseguira juntar uma pequena reserva de dinheiro. Foi numa noite, depois da oração do terço, que seu Antônio apresentou à mulher uma ideia.

— Estava pensando numa coisa. Por que não mandamos Simone para aquele colégio de freiras em Goiânia?

Já ouvira falar muito bem do internato da Santíssima Trindade. As religiosas eram conhecidas pela boa formação que ofereciam às moças. Quem sabe, longe das más influências e sob a orientação das irmãs, a menina não encontraria seu caminho?

Dona Mocinha não gostou da proposta. Resistiu por algum tempo, até que apresentou uma condição: deveriam perguntar à filha. Se Simone quisesse estudar fora, iria. Caso contrário, o assunto estaria encerrado.

Seu Antônio reagiu mal.
— Desde quando filho escolhe o que deve fazer? A responsabilidade de educar é dos pais.
— Eu sei, Antônio. Mas, dessa vez, quero ouvir a menina.
— E se ela disser que não?
— Então fica.

O marido ainda tentou argumentar, mas não conseguiu demovê-la.

Quando recebeu a notícia, Simone ficou entusiasmada. A ideia de conhecer outra cidade, estudar num colégio diferente e, principalmente, viver longe da vigilância do pai parecia uma oportunidade irrecusável. Aceitou imediatamente.

No começo do ano, despediu-se da família e seguiu para Goiânia.

O internato da Santíssima Trindade era um mundo novo. Havia meninas de diferentes cidades, aulas, brincadeiras, um grande refeitório, horários de estudo e conversas sussurradas na escuridão do dormitório. Simone gostava especialmente das confidências trocadas entre as colegas, quando as luzes se apagavam e as freiras já não podiam ouvir tudo.

Também havia o coral, as orações em louvor a Nossa Senhora e as missas. Mas a rotina religiosa, com o tempo, começou a incomodá-la. Tudo tinha hora marcada: acordar, estudar, comer, rezar e dormir. As regras eram numerosas e a vigilância, constante.

Não demorou para que Simone encontrasse maneiras de escapar daquele controle. Com duas colegas, começou a sair escondida do internato. No início, eram pequenas aventuras nos fins de semana. Iam ao shopping, a poucos quarteirões do convento, e voltavam antes que alguém percebesse a ausência.

Simone tinha então dezesseis anos. Numa dessas escapadas, ela e as colegas conheceram alguns rapazes. Primeiro vieram as amizades, depois os namoros. Simone se interessou por Zelito, um rapaz alto que trabalhava no comércio. Os encontros se tornaram frequentes. Ela sempre encontrava um jeito de vê-lo.

Estava apaixonada, ou pelo menos acreditava estar.

As carícias foram ficando mais íntimas. Simone não estava convencida de que queria dar aquele passo, mas imaginava que fosse natural entre namorados e temia que uma recusa pudesse afastar Zelito. Acabou cedendo. A experiência, porém, ficou muito longe do que esperava. Sentiu dor e desconforto e, sobretudo, percebeu que Zelito se preocupava apenas com o próprio prazer. Depois, ele ia embora sem demonstrar carinho ou qualquer sinal de afeto, como se nada de especial tivesse acontecido.

Ainda assim, continuaram se encontrando. Simone acreditava que o amava, embora desconfiasse de que o sentimento não fosse recíproco. Não se sentia à vontade naquela intimidade, mas insistia, talvez na esperança de que a relação se tornasse mais afetuosa. No fundo, sentia-se sozinha. Tinha a impressão de ser apenas alguém de quem Zelito se servia quando tinha vontade. E isso a deixava triste e desapontada consigo mesma.

Os primeiros sinais apareceram discretamente. Simone começou a sentir enjoos pela manhã, um cansaço que não costumava ter e uma indisposição que atribuía à alimentação do internato. A menstruação, porém, não vinha.

No início, não deu importância. Depois, começou a contar os dias. Fez as contas uma vez, duas, três. Não havia engano possível. Ainda assim, recusava-se a aceitar o que a própria cabeça insistia em lhe dizer.

Uma tarde, enquanto as colegas estudavam, Simone olhava para o caderno aberto sem conseguir ler uma única linha. Sentia o coração disparado. Levantou-se, foi até o banheiro e permaneceu algum tempo diante do espelho.

— Não pode ser. Comigo não — murmurou.

Mas podia.

Nos dias seguintes, a suspeita tornou-se uma certeza. Com a ajuda de uma das colegas, procurou discretamente um médico e recebeu a confirmação que tanto temia.

Estava grávida.

Saiu do consultório atordoada. A rua continuava movimentada, os ônibus passavam, as pessoas conversavam e caminhavam apressadas. Tudo parecia absolutamente normal. Só ela tinha a impressão de que o mundo havia parado.

Sentou-se num banco da pracinha próxima à unidade de saúde e levou as mãos ao rosto. Pensou em casa, no pai, na mãe, nos irmãos e na decepção que imaginava ver no rosto de todos. Seu Antônio não a perdoaria. Talvez nunca mais quisesse vê-la. E o que diria dona Mocinha? A mãe, que sempre a defendera e que, embora relutante em mandá-la para Goiânia, fizera questão de que a decisão fosse da própria filha.

Pensou em fugir. Mas para onde iria? Não tinha dinheiro, emprego nem lugar para ficar. Pensou em esconder a gravidez, como se fosse possível. Pensou até em não voltar ao internato. Cada ideia parecia mais desesperada que a anterior.

Havia ainda Zelito. Afinal, ele era o pai. Talvez se responsabilizasse. Talvez a amasse o suficiente para não a abandonar. Agarrou-se a essa possibilidade como quem procura uma tábua no meio de um naufrágio.

Na primeira oportunidade, foi procurá-lo.

Encontraram-se num lugar onde costumavam namorar. Simone estava nervosa. Passou algum tempo tentando encontrar as palavras, até que resolveu falar de uma vez.

— Zelito, preciso lhe dizer uma coisa muito séria.

— O que foi? Está acontecendo alguma coisa?

Ela respirou fundo.

— Estou grávida.

Ele ficou imóvel por alguns segundos. Depois desviou o olhar.

— Tem certeza?

— Tenho. Fui ao médico.

— Mas como isso foi acontecer?

Simone olhou para ele, sem acreditar no que acabara de ouvir.

— Como aconteceu? Você sabe muito bem como aconteceu, Zelito. Ninguém engravida sozinha.

Ele passou a mão pelos cabelos, olhou para os lados e começou a falar sobre as dificuldades que enfrentaria. Não tinha condições de assumir uma família, não ganhava o suficiente, ainda precisava cuidar da própria vida. Simone ouvia sem interromper.

— Mas nós vamos ter um filho — disse ela, quase num sussurro.

— Você precisa entender minha situação.

— E você precisa entender a minha.

Zelito não respondeu. Disse que conversariam depois, que precisava pensar, que procuraria uma solução. Separaram-se sem que ele assumisse qualquer compromisso.

Simone esperou. Passaram-se alguns dias. Procurou-o novamente, mas não o encontrou. Telefonou, deixou recados e tentou descobrir onde trabalhava. Numa das últimas tentativas, soube que ele havia mudado de endereço. Depois disso, não teve mais notícias.

Foi então que compreendeu que estava sozinha. Não podia mais contar com Zelito. Restava enfrentar o que talvez fosse ainda mais difícil: contar tudo aos pais. Não sabia como seu Antônio reagiria. Tinha medo até de imaginar.

Nota do autor: Este conto foi inspirado em um episódio de meu romance É da Natureza Humana, publicado em 2025. O trecho original foi adaptado e ampliado para esta publicação.

A história de Simone não termina aqui. Sua trajetória continua no romance É da Natureza Humana, de João Régis Magalhães, disponível em e-book na Amazon.com.br


João Régis Magalhães

João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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