A crise climática também é uma pauta LGBT
No momento em que o Brasil recebe o mundo em 2025, temos a chance de iniciar uma conversa sobre a relação entre pessoas LGBT+ e a crise climática. Certamente, o problema que estamos enfrentando é um problema que afeta todas as pessoas que vivem no planeta Terra, mas uma discussão ainda permanece aberta sobre como cada coletividade é afetada de maneira singular devido aos marcadores sociais que a atravessam.
Quando pensamos em mudanças climáticas, costumamos imaginar furacões, queimadas, enchentes em grandes cidades. Mas a crise climática também é feita de pequenos
deslocamentos silenciosos: a pessoa trans expulsa de casa que acaba em uma área de encosta vulnerável; a bicha preta que trabalha na informalidade e perde tudo quando a enchente invade a periferia; a sapatão indígena que vê seu território ameaçado pelo avanço do agronegócio e da mineração.
A desigualdade social e a LGBTfobia se misturam com a desigualdade ambiental – e produzem um cenário em que não são “os humanos” em geral que sofrem, mas sempre os mesmos corpos. A ideia de justiça climática nasce justamente daí: não basta “salvar o planeta” em abstrato, é preciso olhar para quem está em risco primeiro, quem tem menos acesso à moradia digna, saneamento básico, renda, políticas públicas. No Brasil, isso significa assumir que a população LGBT+, sobretudo negra, pobre e das periferias urbanas e rurais, está na linha de frente dos impactos – mas raramente está sentada à mesa onde se decide o futuro.
A COP30 é uma chance histórica de mudar isso. Pela primeira vez, a conferência acontece na Amazônia, região em que conflitos ambientais, violência política e violações de direitos caminham juntos.
Nesse contexto, não dá para falar de desmatamento sem falar de assassinatos de lideranças LGBT+ e de pessoas defensoras de direitos humanos. Não dá para celebrar “economia verde” ignorando quem continua sem acesso a água, energia, moradia ou trabalho, porque sua existência é considerada menos legítima.
Quando governos e empresas anunciam planos climáticos cheios de siglas e termos técnicos, é comum que esses debates pareçam distantes da vida real. Mas a verdade é que a agenda climática decide coisas muito concretas: se sua casa será reassentada ou não; se o transporte público vai melhorar ou se você continuará preso em longos trajetos poluídos; se o bairro em que você mora terá árvores, drenagem e equipamentos públicos ou seguirá como “zona de sacrifício”. E todas essas decisões são relevantes para as possibilidades de bem-viver das comunidades LGBT+.
É por isso que precisamos trazer a pauta LGBT para o centro da conversa sobre clima. Isso não quer dizer “acrescentar uma sigla” em um documento, e sim mudar a forma de pensar políticas públicas. Significa, por exemplo, reconhecer que abrigos emergenciais em enchentes e deslizamentos precisam ser espaços seguros para pessoas LGBT+ – o que passa por formação das equipes, protocolos contra violência, respeito à identidade de gênero. Significa incluir a diversidade sexual e de gênero nas pesquisas sobre vulnerabilidade climática. Significa garantir que programas de transição energética e economia verde incluam formação profissional e renda para quem hoje vive da informalidade, muitas vezes porque o mercado de trabalho é excludente para pessoas LGBT+, sobretudo, pessoas trans e travestis.
É nesse cruzamento entre clima, democracia e direitos LGBT que o VoteLGBT, inspirado pela sua missão de compartilhar tecnologias LGBT pela cidadania plena para todas as pessoas, participa da COP30 e adiciona mais um capítulo em sua ampla trajetória e atuação com o Terra+, um ponte entre direitos LGBT e justiça climática.
O Terra+ parte de uma pergunta simples, mas poderosa: como podemos construir vínculos sustentáveis entre as lutas por justiça climática e pelo bem-viver LGBT? Para respondê-la, conversamos com diversas lideranças LGBT+ indígenas ao longo deste ano que compartilharam suas perspectivas, imaginações e sonhos sobre como o futuro pode ser diferente. Um futuro em que a vidas LGBT+ estejam totalmente integradas em nossos desejos de uma vida plena para todas as pessoas.
O que descobrimos é um presente marcado por problemas como a falta de saneamento básico, insegurança alimentar, invasão de terras, garimpo e extrativismo ilegais, entre outros. Mas também encontramos uma presença forte de lideranças LGBT+ empenhadas no fortalecimento de suas comunidades e que nos mostram que há uma sabedoria que as perspectivas LGBT trazem para a luta por mudanças e a busca por soluções aos desafios que enfrentamos.
Com a COP30, temos a oportunidade de mostrar ao mundo que justiça climática também é um problema LGBT e que reconhecer tecnologias de cuidado que vêm de comunidades historicamente marginalizadas é o caminho que deveríamos seguir. As redes de apoio mútuo LGBT, os coletivos de periferia, as casas de acolhimento, as organizações que atuam com saúde e direitos humanos já são, na prática, infraestruturas de cuidado diante da crise climática, ainda que não usem essa linguagem.
O desafio agora é transformar essa experiência em agenda pública. Isso significa levar pessoas LGBT+ para as delegações, grupos de trabalho e espaços oficiais da COP30, mas também integrá-las daqui em diante nas conversas e decisões de prevenção, enfrentamento e resposta à crise climática . Significa pressionar para que planos climáticos nacionais incluam metas ligadas a habitação, proteção contra violência, saúde mental e participação política dessa população. Significa, sobretudo, contar outras histórias: em vez de retratar pessoas LGBT+ apenas como vítimas, reconhecê-las como protagonistas de soluções, guardiãs de territórios, artistas, pesquisadoras, lideranças comunitárias, vizinhas, amigas, pessoas com quem desenhamos a possibilidade de um futuro melhor.
A crise climática já é o presente. A pergunta é que futuro estamos construindo a partir dela. Se a resposta não incluir explicitamente pessoas LGBT+ não estaremos falando de justiça, apenas de gerenciamento de danos. A COP30 pode ser um marco de outro caminho: um em que cuidar da Terra e cuidar das pessoas andem juntos, e em que ninguém precise escolher entre existir e sobreviver. O Terra+ e tantas outras iniciativas estão mostrando que essa virada é possível. Cabe a nós, enquanto sociedade, decidir se vamos segui-la.
*Com informações de CNN