A decadência mundial e o enfraquecimento da justiça
Em diferentes partes do mundo, cresce a percepção de que algo essencial está se perdendo. Escândalos recorrentes, denúncias de corrupção, perseguições promovidas pelo próprio Estado e a aplicação desigual da lei alimentam um sentimento coletivo de insegurança e descrença. Não se trata apenas de fatos isolados, mas de um quadro mais amplo de decadência institucional que afeta a confiança das pessoas nas estruturas que deveriam protegê-las.
A sucessão de escândalos é um dos sinais mais visíveis desse processo. Casos que envolvem abuso de poder, desvios de recursos e condutas antiéticas deixam de causar espanto e passam a ser recebidos com resignação. Quando o escândalo se torna rotina, a sociedade corre o risco de normalizar o que deveria ser exceção. Esse fenômeno enfraquece a indignação moral e cria um ambiente em que práticas erradas se perpetuam sem resistência efetiva.
Outro aspecto preocupante é a perseguição estatal, que ocorre quando mecanismos legais e administrativos são utilizados não para garantir justiça, mas para intimidar, silenciar ou eliminar adversários e críticos. Ainda que muitas vezes apresentada sob o discurso da legalidade, essa prática mina o Estado de Direito por dentro. A lei, que deveria servir como escudo para todos, transforma-se em instrumento de coerção seletiva. O resultado é o medo, a autocensura e o empobrecimento do debate público.
A corrupção, por sua vez, funciona como um corrosivo silencioso. Ela não se limita ao desvio de dinheiro, mas atinge decisões, prioridades e valores. Quando interesses particulares se sobrepõem ao bem comum, políticas públicas perdem eficácia e instituições deixam de cumprir sua finalidade. A corrupção também aprofunda desigualdades, pois aqueles com mais recursos ou influência conseguem escapar das consequências que recaem com rigor sobre os mais vulneráveis.
Talvez o sinal mais grave dessa decadência seja o desmoronamento da justa aplicação da lei. A ideia de que todos são iguais perante as normas é um dos pilares da civilização jurídica. Quando esse princípio é violado — seja por privilégios indevidos, seja por punições seletivas — instala-se a sensação de injustiça estrutural. A lei passa a ser vista não como expressão de justiça, mas como ferramenta de conveniência.
Esse cenário produz efeitos profundos na vida cotidiana. A desconfiança nas instituições gera apatia, radicalização e ruptura do tecido social. Pessoas deixam de acreditar que vale a pena agir corretamente quando percebem que regras não são aplicadas de forma equânime. A longo prazo, isso compromete a própria ideia de convivência civilizada.
Apesar do quadro sombrio, reconhecer a decadência é o primeiro passo para enfrentá-la. A valorização da ética, da transparência e do respeito às garantias legais continua sendo fundamental. Sem esses princípios, não há justiça verdadeira, apenas a aparência dela. E sociedades que vivem apenas de aparências acabam, inevitavelmente, colhendo os frutos amargos da própria omissão.
P.B.Lemos Filho Teólogo formado pela Faculdade Teológica Batista de Brasília, Advogado formado pelo CEUB, pós graduação em Processo Civil. Foi Analista do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, Oficial de Justiça do TRT 10a Região e atualmente é Procurador Legislativo da Câmara Legislativa do Distrito Federal. É autor do livro OS REIS QUE VIRÃO publicado pelo clube de autores
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