A Família Bíblica Além do Conservadorismo e do Progressismo

A expressão “família conservadora” é relativamente recente e nasce em um contexto de disputas culturais, políticas e morais próprias da modernidade. Trata-se menos de um conceito bíblico e mais de um rótulo sociológico, criado para marcar posições em debates contemporâneos. Quando esse rótulo é projetado retrospectivamente sobre a Bíblia, corre-se o risco de anacronismo: ler o texto sagrado com categorias que não pertencem ao seu tempo nem à sua lógica teológica.

O padrão bíblico de família não coincide plenamente nem com o modelo moderno chamado de conservador, nem com os modelos alternativos que se apresentam como progressistas. A Escritura não oferece uma idealização romântica da família; ao contrário, apresenta famílias reais, marcadas por conflitos, ambiguidades, rupturas e falhas profundas. A Bíblia não constrói sua teologia a partir da perfeição das famílias, mas da fidelidade de Deus apesar delas.

Basta observar os principais personagens bíblicos. Abraão, frequentemente chamado de “pai da fé”, viveu uma dinâmica familiar complexa: casamento com Sara, concubinato com Agar, conflito entre Isaque e Ismael, expulsão de um filho. Nada disso se encaixa facilmente em um ideal contemporâneo de família estável, nuclear e homogênea. Ainda assim, é nesse contexto imperfeito que Deus faz sua promessa e conduz a história da redenção.

O mesmo se repete com Jacó, cuja família é marcada por favoritismo, rivalidade entre esposas, competição entre irmãos e traições internas. Seus filhos vendem José como escravo, e a reconciliação só ocorre após anos de sofrimento. Não há aqui um modelo de “família exemplar”, mas um retrato cru da condição humana. A narrativa bíblica não oculta essas falhas; ela as expõe, precisamente para mostrar que a ação divina não depende da retidão moral plena dos seus instrumentos.

Davi, o rei segundo o coração de Deus, talvez seja um dos exemplos mais desconcertantes. Sua vida familiar inclui adultério, violência, filhos que se rebelam, estupro dentro do próprio lar e assassinato. Se lido apenas a partir de um ideal normativo, Davi seria descartado. No entanto, a Escritura insiste em outra lógica: Deus trabalha com homens falhos, e a grandeza do plano divino não está na impecabilidade humana, mas na misericórdia que atravessa o pecado.

Isso revela algo fundamental: a Bíblia não sacraliza estruturas familiares específicas como se fossem absolutas ou intocáveis. O que ela preserva é uma antropologia realista e uma teologia da graça. A família é apresentada como espaço de bênção, mas também de queda; de cuidado, mas também de dor. Não é um fim em si mesma, nem um ídolo moral, mas um lugar onde a história humana se desenrola sob o olhar de Deus.

Nesse sentido, o rótulo “família conservadora” diz mais sobre o debate contemporâneo do que sobre a revelação bíblica. Ele pressupõe um ideal fixo, estável e normativo, enquanto a Bíblia trabalha com narrativas abertas, tensas e muitas vezes desconfortáveis. O erro não está em valorizar a família, mas em absolutizar um modelo específico como se fosse o único legítimo ou como se fosse diretamente equivalente ao padrão bíblico.

A Escritura aponta para algo mais profundo do que formas sociais: aponta para a condição humana. Falhar faz parte do ser humano; pecar, errar, quebrar alianças e reconstruí-las são elementos recorrentes da história bíblica. A perfeição não é exigida do homem, porque a perfeição pertence somente a Deus. O que se espera do ser humano não é impecabilidade, mas abertura à correção, ao arrependimento e à graça.

No Novo Testamento, essa lógica se intensifica. Jesus relativiza os vínculos familiares quando estes se tornam obstáculos à verdade do Reino, afirmando que sua verdadeira família é composta por aqueles que fazem a vontade de Deus. Isso não é uma negação da família, mas uma reordenação de prioridades: nenhuma estrutura humana é absoluta; Deus É.

Portanto, uma leitura madura das famílias bíblicas exige que se vá além dos rótulos. Nem conservador, nem progressista: a Bíblia opera em outra chave. Ela não legitima a falha, mas também não a oculta; não idolatra a família, mas tampouco a despreza. Ela revela um Deus que age no meio do caos humano, chamando pessoas imperfeitas para participarem de um plano perfeito.

No fim, a mensagem não é sobre a família ideal, mas sobre o Deus fiel que sustenta famílias reais. E isso desloca o foco: da defesa de modelos para a compreensão da graça; da pureza estrutural para a transformação interior; da perfeição humana para a soberania divina.

P.B.Lemos Filho Teólogo formado pela Faculdade Teológica Batista de Brasília, Advogado formado pelo CEUB, pós graduação em Processo Civil. Foi Analista do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, Oficial de Justiça do TRT 10a Região e atualmente é Procurador Legislativo da Câmara Legislativa do Distrito Federal. É autor do livro OS REIS QUE VIRÃO publicado pelo clube de autores
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