A perder de vista

Recentemente precisei ir a São Paulo para um treinamento em consultoria. Passei por situações inusitadas nesse vai-e-vem entre aeroportos. Uma foi no Aeroporto JK, em Brasília, quando pisei em um clipe caído no corredor. Claro, a perna já fragilizada pela sequela de pólio não ajudou e levei um tombo aos moldes dos filmes “pastelão”. Esborrachei no chão e, tendo o peso aumentado pela mochila às costas. O rosto foi ao chão e tive um pequeno, mas dolorido, ferimento no queixo. Sobrevivi.

Noutra viagem, sofri com os calos provocados pela pisada irregular do pé direito, cuja perna tem alguns músculos atrofiados. Mesmo os bons calçados não conseguem evitar o problema. Assim, por indicação de um médico amigo, fui à loja especializada em palmilhas. O atendente me informou que o melhor seria
produzir uma palmilha para cada calçado. Observei que o preço individual da palmilha seria um valor próximo ao do próprio calçado. Uau! Assustador.

Poucas pessoas conseguem entender a extensão dos problemas que qualquer paralisia, ainda que parcial, provoca no dia a dia de uma pessoa. Transtornam mesmo as demandas simples, como adiantar o passo para alcançar um transporte, utilizar rampas ou escadas, especialmente quando não há corrimãos, entre diversas outras. Quando, além de tudo isso, ainda concorre alguma dor
para complicar ainda mais o processo, às vezes causa desânimo.

Tentando negociar uma condição melhor, perguntei se, à vista, haveria algum desconto; se poderia dividir no cartão. A resposta foi diferente do que imaginei: sem Nota Fiscal, daria um desconto de trinta por cento. Parecia interessante, mas não me pareceu legal. Um outro cliente, também na casa dos 65 anos, sorriu e sugeriu que eu aceitasse a oferta. E continuou explanando suas razões:

-Olha, moço, você já é espoliado demais. Por exemplo, do seu salário já descontam o imposto, mesmo que, ao final do ano, descubram que não era devido e, nesse caso, podem até devolver o que lhe foi tirado, mas só a partir de maio, se tiver sorte de estar no primeiro lote restituível. Quando você compra um carro, paga mais, e muito, imposto. E tem imposto sobre a documentação para registrar a propriedade. Vai pagar para sempre aluguel ao governo, o IPVA, enquanto for seu. É bom lembrar que é muito difícil um assalariado ter dinheiro para comprar um carro à vista, ou seja, mais impostos pelo financiamento e muito mais sobre o combustível, peças e mão-de-obra, em eventual manutenção.

Talvez compre um imóvel, então pagará impostos sobre esse bem, sobre a documentação e aluguel (tributo) para sempre, o IPTU, enquanto a casa pela qual pagou estiver em seu nome. Nem vou falar sobre água, luz, telefone, alimentos, viagens e mais uma infinidade de itens sobre os quais incide
impostos. E, quando se for, até sobre isso cobrarão impostos. Mas é importante saber que o seu legado será novamente taxado quando for transferido aos seus descendentes. Agora, se resolver comemorar, saiba que as bebidas estão entre os itens com mais alta carga tributária.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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