Além do Grito de Torcida: Por que a Divisão entre Direita e Esquerda nos Empobrece
O maniqueísmo político que divide o mundo entre “direita” e “esquerda” tornou-se uma das narrativas mais eficientes para simplificar a realidade e mobilizar comportamentos. Essa divisão, embora tenha raízes históricas reais, costuma ser reduzida a caricaturas facilmente digeríveis. Tal simplificação abre espaço para manipulações, especialmente entre parcelas da população que dispõem de menos acesso à informação de qualidade, menos tempo para análise crítica ou menor preparo para avaliar discursos complexos. Não se trata de inferiorizar indivíduos, mas de reconhecer que vulnerabilidades informacionais existem e podem ser exploradas.
A lógica maniqueísta parte da construção de dois polos que se definem não por suas propostas, mas pela negação do outro. Assim, direita vira sinônimo de ordem, tradição ou liberdade econômica, enquanto esquerda é associada a justiça social, igualdade ou intervenção estatal. Na prática, ambos os campos são muito mais diversos e contraditórios, mas o discurso político raramente explora nuances, porque a polarização rende engajamento imediato. Campanhas, influenciadores e até algoritmos de redes sociais tendem a privilegiar esse modelo binário justamente porque ele provoca respostas emocionais e reduz a complexidade a slogans facilmente compartilháveis.
Quando a discussão política é empobrecida, cria-se terreno fértil para manipulação. Discursos de medo, promessas absolutas e teorias conspiratórias tornam-se ferramentas eficazes para influenciar indivíduos com menor repertório crítico, que recebem informações fragmentadas e sem contexto. Além disso, a linguagem emocional costuma suplantar fatos, e símbolos substituem argumentos. Esse fenômeno ocorre em qualquer espectro: líderes de direita e de esquerda, quando operam de modo populista, dependem da mesma lógica simplificadora para obter apoio rápido.
O resultado é um ambiente em que a política deixa de ser debate sobre projetos de sociedade e se transforma numa disputa identitária entre “os nossos” e “os deles”. A identidade política substitui a análise racional, e a necessidade de pertencimento se sobrepõe à busca por verdade. Nesse cenário, qualquer tentativa de apresentar dados, complexidades ou contradições encontra resistência, pois ameaça a segurança emocional oferecida pelo grupo de referência.
Romper essa dinâmica exige fortalecer a educação midiática, incentivar o pensamento crítico e promover espaços de diálogo onde nuances não sejam tratadas como fraqueza intelectual, mas como parte natural da vida democrática. A superação do maniqueísmo não depende de suprimir diferenças políticas, mas de reconstruir a capacidade coletiva de compreender que direitas e esquerdas são tradições complexas, permeadas por virtudes e vícios, e que a democracia se empobrece quando reduzida ao grito de torcidas.
P.B.Lemos Filho Teólogo formado pela Faculdade Teológica Batista de Brasília, Advogado formado pelo CEUB, pós graduação em Processo Civil. Foi Analista do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, Oficial de Justiça do TRT 10a Região e atualmente é Procurador Legislativo da Câmara Legislativa do Distrito Federal. É autor do livro OS REIS QUE VIRÃO publicado pelo clube de autores
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