Beijo pode ter surgido há mais de 21 milhões de anos
Um estudo publicado em 19 de novembro de 2025 na revista Evolution and Human Behavior propõe que o beijo, definido de forma biológica como contato boca a boca não agressivo sem transferência de alimentos, tem origem muito mais antiga do que se imaginava. Segundo a pesquisa, o comportamento teria surgido há aproximadamente 21 milhões de anos no ancestral comum dos grandes primatas, muito antes do aparecimento do Homo sapiens.
Definição científica de “beijo”
Para investigar a origem do ato, os pesquisadores precisaram, primeiro, estabelecer uma definição operacional. A equipe observou que várias espécies apresentam interações boca a boca, mas que nem todas se enquadram como beijo. Mães orangotangos e chimpanzés, por exemplo, transferem comida previamente mastigada aos filhotes, enquanto algumas espécies de peixes realizam comportamentos de “luta de beijo” para fins de competição territorial. A definição adotada excluiu casos como esses para permitir comparações adequadas entre espécies.
Comportamento observado em primatas modernos
Com base nessa definição, o grupo registrou que espécies como bonobos, chimpanzés, gorilas, orangotangos e alguns babuínos realizam beijos em interações sociais e sexuais. Essas observações foram então utilizadas como base para extrapolar padrões evolutivos em primatas ancestrais. A presença do comportamento em diferentes ramos da família dos grandes primatas indicou a possibilidade de uma origem única e antiga.
Modelagem Bayesiana para reconstrução evolutiva
Para compreender quando o beijo teria surgido, os pesquisadores aplicaram um método de reconstrução filogenética conhecido como modelagem Bayesiana. O objetivo era estimar a probabilidade de presença ou ausência do comportamento em ancestrais a partir da distribuição atual nas espécies vivas. Foram realizadas cerca de 10 milhões de simulações, considerando diferentes cenários evolutivos. O resultado apontou para uma origem entre 21,5 e 16,9 milhões de anos, em um ancestral comum dos Hominidae, grupo que inclui humanos, gorilas, chimpanzés e orangotangos.
Implicações para humanos e neandertais
Se o comportamento realmente surgiu nesse ancestral distante, então neandertais, que dividiram origem com humanos modernos há cerca de 700 mil anos, provavelmente também se beijavam. A hipótese é consistente com pesquisas anteriores que analisaram micróbios preservados na placa dental de neandertais de cerca de 48 mil anos e encontraram semelhanças com microbiomas humanos modernos. Embora isso não prove beijos, sugere contato suficientemente íntimo para permitir trocas microbianas por meio de saliva, água ou alimentos compartilhados.
Diversidade cultural e variabilidade do comportamento
Uma ressalva importante apontada pelos pesquisadores é que o beijo não é universal entre populações humanas atuais. Estudos antropológicos mostram que apenas metade das culturas humanas possuem o beijo romântico ou sexual como prática comum. Essa variabilidade contemporânea implica que, mesmo que o comportamento existisse nos ancestrais, ele poderia ter sido mais ou menos frequente entre diferentes grupos de neandertais ou primeiros Homo sapiens.
Por que o beijo pode ter evoluído?
A pesquisa também discute possíveis funções evolutivas para o beijo. Uma das principais teorias é que o ato auxilia na escolha de parceiros ao permitir a avaliação de sinais químicos sutis, como saúde geral e compatibilidade genética. Outro argumento é que o beijo fortalece vínculos emocionais e sociais, podendo aumentar a cooperação entre indivíduos. Também existe a hipótese de que a troca de micróbios estimule o sistema imunológico, embora essa ideia ainda seja debatida.
Possível origem ligada ao compartilhamento de alimentos
Entre as hipóteses avaliadas, uma das mais citadas pelos autores envolve a adaptação de comportamentos maternos. Muitos primatas compartilham alimentos pré-mastigados com filhotes, o que pode ter servido como ponto de partida para interações boca a boca que mais tarde evoluíram para beijos em contextos sociais ou sexuais. Conforme os filhotes cresciam e esses comportamentos se tornavam parte do repertório social, o beijo poderia ter adquirido funções mais amplas.
Necessidade de novas evidências
Apesar da abrangência da análise, os cientistas ressaltam que o estudo não encerra o debate sobre a origem do beijo. A reconstrução depende de dados comportamentais contemporâneos e modelos estatísticos, e mais evidências paleontológicas, microbiológicas e etológicas serão necessárias para confirmar as estimativas. Ainda assim, o trabalho representa o esforço mais amplo até agora para rastrear a história evolutiva do beijo, conectando comportamento humano moderno com padrões observados em primatas ao longo de milhões de anos.
*Com informações de Fatos Desconhecidos