Brinde à Vista ou Desafio na Gôndola? O Novo Capítulo do Acordo Mercosul-UE
Por Su Maestri para Revista Pepper
O mundo do vinho acordou com um novo aroma este mês. Após 26 anos de uma maturação diplomática lenta e complexa, a assinatura do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) finalmente saiu do papel. Para o entusiasta da enogastronomia, a notícia soa como a abertura de uma safra especial; para o produtor brasileiro, no entanto, o cenário exige cautela, estratégia e, acima de tudo, isonomia.
O Fim da Barreira dos 35%
Até então, o vinho europeu chegava às mesas brasileiras carregando um “pedágio” pesado: uma tarifa de importação de 35%, uma das mais altas do mundo. Com a ratificação do acordo, essa alíquota entra em um processo de desgravação gradual.
A expectativa é que a redução já comece com um corte de 20% no primeiro ano, seguindo um cronograma que zerará o imposto em um período que varia de 8 a 12 anos. Na prática, rótulos franceses, italianos, portugueses e espanhóis ganharão uma competitividade inédita no mercado doméstico, pressionando os preços para baixo e diversificando as opções para o consumidor.
A Assimetria no Campo: O Medo do “Protecionismo Reverso”
Se por um lado o consumidor celebra, as entidades representativas do setor vitivinícola brasileiro, como o Consevitis-RS e a Uvibra, levantam alertas importantes. O temor não é a concorrência em si — o vinho brasileiro já provou sua qualidade internacionalmente —, mas a disparidade de condições.
Enquanto na Europa o vinho é frequentemente tratado como alimento ou patrimônio cultural, com subsídios agrícolas robustos, no Brasil ele é tributado como bebida alcoólica comum. Com a reforma tributária em curso e a inclusão do setor no “Imposto Seletivo” (o chamado imposto do pecado), os produtores nacionais temem um estrangulamento:
Carga Tributária: O vinho nacional pode chegar a pagar até 60% de impostos totais, entre IPI, ICMS e PIS/COFINS.
Escala: A produção europeia beneficia-se de subsídios que o Brasil não consegue replicar, permitindo preços de entrada extremamente agressivos.
Agricultura Familiar: Mais de 15 mil famílias, especialmente na Serra Gaúcha, dependem diretamente da uva. Sem medidas de salvaguarda ou incentivos à modernização, o risco social é real.
O Caminho da Sobrevivência: Qualidade e Enoturismo
Apesar do “choque de oferta” iminente, há um consenso de que o acordo pode ser o catalisador que faltava para a maturidade do setor. O Brasil registrou um crescimento de quase 40% no volume produzido no último ano, e a expansão para novas fronteiras — como os vinhos de inverno em Minas Gerais e São Paulo — mostra que o país tem terroir e inovação.
O setor agora cobra do governo contrapartidas: investimentos em tecnologia, desoneração da cadeia produtiva e fortalecimento do enoturismo, que hoje é o grande pilar de sustentação econômica de muitas vinícolas brasileiras.
O Veredito para o Enófilo
Entendemos que o acordo é um caminho sem volta. Teremos vinhos europeus mais acessíveis? Sim. Mas cabe ao consumidor0
O acordo não é o fim do vinho nacional, mas o início de uma competição em nível global. Que vençam a qualidade e o terroir.
Fontes Consultadas: Consevitis-RS, Uvibra, Agência Brasil, Relatórios da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Jornalista e Sommelière especializada em vinhos, jurada de enogastronomia
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