Cinzas
Em 1974, nosso último ano em João Monlevade, antes de nos transferirmos para Belo Horizonte, o Edifício Joelma, de 25 andares, no centro de São Paulo, se transformou num inferno. Um incêndio avassalador provoca a morte de 189 pessoas e deixa 293 feridos. Um marco tenebroso para a história da tão progressista cidade, orgulhosa de estar entre as cinco maiores do planeta.
Nesse mesmo ano, o Ministério da Saúde alterou sua estratégia com relação ao combate à poliomielite. Saia do conceito de vacinação em massa e priorizava a imunização de rotina nos postos de saúde e hospitais públicos. A intenção era fortalecer o sistema de vigilância epidemiológica e a conservação
do imunizante. No entanto a cobertura vacinal sofreu redução. Nesse período, vários países em desenvolvimento ainda tinham essa patologia disseminada. Isso fez com que também se ampliasse, a produção e emprego da vacina Sabin para controle com o objetivo de erradicação dessa doença.
Hoje, Quarta-Feira de Cinzas, trago, com saudades de um período de grande qualidade nas composições musicais brasileiras, a lembrança da música Fantasia (1974) de João Bosco e do saudoso Aldir Blanc, gravado pela ótima Simone: “Olhando, na quarta-feira, as ruas vazias / Com os garis dando um
jeito em nossa moral…”. E avalio o quanto seria bom se os problemas que enfrentamos pudessem ser simplesmente varridos, coletados em sacos plásticos e removidos, para sempre, em caminhões.
Especialmente aqueles que afetam a vida de tantas pessoas, mantendo-as vivas, porém em um estado letárgico de dependência do Estado, numa autocomiseração que as agrilhoa ao infortúnio de uma vida sem futuro. A carência pela carência, a angústia da covardia de não querer quebrar o ciclo da própria miséria e, em conseqüência, dos que lhes sucedem.
Ah! Quarta-Feira! De ressaca, de recolocar as fantasias para um novo ciclo, de encerrar a festa, de retomar a rotina. O Bom pernambucano Luiz Bandeira, no ano de meu nascimento, 1957, teve seu lindo frevo gravado pela saudosa Carmélia Alves, “E de Fazer Chorar”: “Oh! Quarta-Feira ingrata chega tão
depressa, só pra contrariar”. Numa referência ao curto tempo de se viver sem amarras, de se fruir cada alegria sem, de novo lembrando as sugestões de João Bosco e Aldir Blanc, “Não põe corda no meu bloco, nem vem com seu carro-chefe. Não dá ordem ao pessoal” Que comporta mais de uma interpretação: “Não venha com seu carro, Chefe” ou “Não venha com seu carro-chefe”, para lembrar que, ainda que multicolorida, ou com sabor de embutidos, correntes são sempre correntes.
Que sobrevivamos a mais um longo ano até a próxima festa. Um período pleno de grandes emoções como a Copa do Mundo de Futebol e as eleições para o comando desse país tão grande, tão belo e ao mesmo tempo tão espoliado por larápios, corruptos, malversadores do erário.
Bom saber que cada dia dispõe um novo desafio, cada época traz suas dores e também suas alegrias, que a cada instantes temos a oportunidade de olhar em redor e perceber que “enquanto há vida, há esperança.”

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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