Conversa de boteco
João Régis Magalhães
Quatro da tarde. O sol ainda alto. O boteco, quase vazio, oferecia um luxo raro: podia-se escolher qualquer mesa. Até a melhor mesa — aquela estrategicamente posicionada no caminho do barril de chope, perto dos banheiros e do lado contrário do palco, bem distante, que, mais tarde, prometia música e nostalgia.
Um chegou primeiro. Como sempre, alguém espera pelos outros.
Os amigos nunca foram exatamente pontuais. Nem quando tinham cinquenta anos. Agora, aos sessenta — menos ágeis, quase lentos, com pressão alta, netos e consultas médicas na agenda —, a pontualidade virou mais uma boa intenção do que realidade.
Mas isso nunca foi problema. Em reunião de velhos amigos, o tempo não é o do relógio. É o tempo da vida possível.
Foram chegando um a um. No seu tempo. No tempo dos seus contratempos.
O trânsito. O motorista de aplicativo que aceitou a corrida antes de terminar a anterior. A soneca da tarde que passou do ponto. Um telefonema que começou com “é rapidinho” e durou quarenta minutos.
Pequenas sabotagens cotidianas que só nos damos conta de que existem quando tentamos não nos atrasar.
Mas havia uma certeza — uma certeza quase redundante: logo todos estariam ali.
Porque encontro de amigos não é agenda. É lealdade.
O dia do boteco é compromisso sagrado. Não se aceita atestado. Nem médico. Nem psicológico. Nem conjugal. Todos presentes. Sempre.
Aqueles amigos — aposentados, semiaposentados ou ainda trabalhando apenas o suficiente para manter a dignidade e o plano de saúde — reuniam-se ali para celebrar a vida e o tempo que ainda lhes restava.
E isso não era pouca coisa.
Era o momento deles. O momento em que se sentiam leves, longe das imposições e dos limites da vida rotineira.
Afinal, estavam em um boteco. Território deles, no ambiente deles e juntos, irmanados.
E isso, por si, bastava.
Ali voltavam a ser o que sempre foram: velhos e bons amigos.
Como disse Jorge Amado: “A amizade é o sal da vida; quem tem amigos tem tudo”.
O garçom, já conhecedor da liturgia, trouxe a primeira rodada sem nem perguntar. Chope claro, estupidamente gelado, com o colarinho na medida certa. Uma versão moderna do néctar dos deuses do Olimpo — só que servido em caneca suada de boteco.
Os mais pontuais já emendavam o segundo.
Os primeiros goles são sempre mais rápidos. Não é pressa. Não é ansiedade. É sede acumulada. Sede de álcool. Sede de conversa. Saudade dos amigos.
Entre um gole e outro, como sempre acontece em toda boa mesa de boteco, o assunto inevitavelmente chegou à economia. Porque a gente pode até não gostar do tema, mas ele vira obrigatório quando o bolso começa a emagrecer mais rápido do que a barriga.
— Parece filme repetido — disse um. — Estoura uma guerra do outro lado do mundo e o preço da gasolina aqui sobe que nem rabo de foguete. Não tem explicação que me convença.
O mais professoral da mesa — sempre existe um perfil desses em qualquer grupo — respondeu como se estivesse em sala de aula:
— É o mercado. O preço da gasolina acompanha o barril do petróleo lá fora. Já passou de cem dólares. Subiu quase trinta por cento desde o começo da guerra no Irã.
— Mas espera aí — retrucou o primeiro, já com o dedo em riste — o Brasil não é autossuficiente em petróleo?
— É — respondeu o didático. — Produz mais do que consome. O problema é refinar. Faltam refinarias. A gente exporta petróleo bruto e importa parte da gasolina e do diesel.
— Ou seja — resumiu um terceiro — vendemos o boi e compramos o bife?
A mesa explodiu em risadas.
— Exatamente isso — confirmou o professor improvisado — só que pagando em dólar.
— Tem um erro aí — insistiu o primeiro. — Não faz sentido gasolina a quase sete reais enquanto o custo para extração e produção do barril aqui fica entre cinco e dez dólares. Um barril tem quase 159 litros. Não é minimamente razoável o preço da gasolina no posto ser praticado seguindo as variações do preço internacional.
Um silêncio breve se instalou. Daqueles em que todos fazem a mesma conta mentalmente.
Até que ele voltou a falar:
— Tem alguém pagando os dividendos bilionários da Petrobras.
Fez uma pausa.
Tomou um gole.
— E esse alguém somos nós.
Outro gole.
— Nós, que trabalhamos quase cinco meses por ano só para pagar impostos e taxas.
O silêncio agora era mais pesado.
— A carga tributária deste país é brutal. E essa política de internacionalizar o preço da gasolina é outra maluquice. Um assalto contra o consumidor.
Os amigos se entreolharam com aquele misto de indignação e conformismo bem brasileiro.
Um quarto amigo, que até então só escutava, resolveu entrar:
— Rapaz… não sabia disso. E ainda tem político dizendo que a culpa é do atravessador. E pior: o dito cujo está em campanha para se reeleger. Política vive de meias verdades. Sempre é bom desconfiar.
— E não é culpa de um governo só — explicou o professoral. — Isso vem de longe. Paridade internacional. Só esqueceram de dolarizar os salários também.
— A gente ganha em real e paga em dólar — resumiu outro.
— E quando sobe o combustível, sobe tudo — completou o primeiro. — O tomate pega carona. O arroz toma Uber. Até o cafezinho acompanha.
Nesse momento, um quinto amigo — já no terceiro chope, estágio em que normalmente surgem as maiores verdades da humanidade — resolveu intervir:
— Vamos parar com isso.
Todos se entreolharam surpreendidos pela intervenção inesperada.
— Já deu dessa conversa. A gente veio aqui foi pra se divertir. Reclamar, a gente reclama lá fora. Aqui dentro é território livre.
Pausa.
— Nas eleições, a gente tenta acertar as contas. Agora vamos mudar a resenha.
A mesa concordou. Talvez pela lógica. Talvez pela chegada da quarta rodada.
O assunto mudou como sempre muda: sem aviso, sem motivo, sem necessidade de coerência. Conversa de amigo não precisa de roteiro.
Mesa de boteco é lugar sagrado. Um refúgio para desopilar a mente. Um confessionário mais barato que terapia.
No mundo dos amigos, tudo é permitido. Nada é proibido. Sempre existe um ombro e alguém disposto a ouvir — sem censura, sem julgamento.
Boteco é um templo profano. Mas, de algum jeito, também sagrado. Talvez por isso mesmo tão humano.
Sem os amigos e sem os botecos, talvez mais gente desistisse por dentro. Mais casamentos desfeitos. Mais comprimidos tarja preta. Menos risadas. Os dias seriam menos claros. As noites mais frias.
O mundo seria pior. Definitivamente, muito pior.
Em uma mesa de boteco se fala de tudo. Ri-se. Discorda-se. Brinda-se. Às vezes até se chora. Mas, sobretudo, vive-se.
O relógio marcou oito da noite.
— Última no preço de happy hour — anunciou o garçom em um tom quase litúrgico, equilibrando uma bandeja com canecas de chope.
O bar já estava cheio. O barulho alto. A vida acontecendo ao mesmo tempo em várias mesas. Era preciso quase gritar para ser escutado.
Os assuntos mudavam como sempre mudam. Mas o tema mais demorado acabou sendo saúde e remédios. Todo velho vira um pouco médico. Sempre tem uma receita. Ou uma história de uma doença ou cirurgia.
Depois das dez vieram os bocejos. Velho dorme cedo. Velho acorda cedo. E aprende, meio sem querer, que a vida agora é um bem ainda mais precioso.
Numa mesa próxima, um homem embriagado gritava frases desconexas. Cena triste. O álcool às vezes só amplia as solidões.
Os amigos pediram a conta.
E, claro, mais uma última saideira.
Porque amizade verdadeira sempre precisa de mais cinco minutos.
Despediram-se como fazem os que sabem que o tempo agora é um bem administrado com cuidado.
— Semana que vem tem mais.
Porque, mesmo com a gasolina cara, a amizade ainda é o melhor investimento.
E, no fundo, todos sabiam a grande verdade daquela mesa: o tempo passa.
O corpo cobra. A vida aperta.
Mas, enquanto existir uma mesa de boteco, um chope gelado e meia dúzia de amigos dispostos a rir de si mesmos, sempre haverá um bom motivo para continuar brindando — à vida.
Salud! Brindemos à vida!

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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