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Crônica de um bloqueio anunciado

João Régis Magalhães

A angústia da tela em branco, o carnaval rebaixado, o racismo que exige coragem, a nostalgia atrasada. Tudo junto. Tudo misturado.

Encarar uma tela em branco é insuportável. Insuportável mesmo. Faz tempo que eu não passava por isso. Normalmente, sento e escrevo de pronto. A ideia aparece, puxo conversa com ela e, quando percebo, já estamos no terceiro parágrafo — íntimos, desenvolvidos, quase cúmplices.

Mas há um pormenor, sempre há um pormenor. Ultimamente, só escrevo quando tenho vontade. Sem compromisso. Sem hora marcada. Sem essa entidade meio antipática chamada prazo. Escrevo quando dá na telha, quando a cabeça ajuda, quando o universo colabora — ou, ao menos, não sabota.

Agora é diferente. Sem rodeios: tenho dia certo para entregar a próxima crônica. Dia certo mesmo. Não é sugestão; é data. Não dá para empurrar com a barriga, nem fingir que o calendário entrou em pane.

E começa o sufoco. Quanto mais o prazo se aproxima, mais as ideias me boicotam. Nascem animadas, fazem pose, prometem futuro e, ato contínuo, murcham. Somem como se nunca tivessem existido. Vou descartando uma a uma.

Nenhuma resiste ao meu crivo, hoje mais rigoroso que o do lendário Chico de Brito, lá do Crato, no Ceará. E olhe que o homem não deixava passar nada. Perto do meu atual nível de exigência, ele pareceria flexível. Se lá quase nada escapava, aqui não escapa absolutamente nada.

A tela continua branca. As horas passam. A data-limite avança como trem na contramão. Penso sobre tudo e sobre nada. Tento agarrar uma ideia, desenvolvê-la, mas só surgem lampejos. Faíscas sem fogo.

Angustia-me a possibilidade de não entregar a encomenda. Poucas coisas frustram mais do que suspeitar da própria incapacidade. É duro enfrentar a própria indolência. Mais duro ainda é desconfiar que ela esteja fantasiada de “excesso de informação”.

Porque assunto não falta. Não falta mesmo.

Fevereiro anda generoso em absurdos. Superlativos como “master” e “supremo” pululam, por aí feito mato em calçada rachada. Os escândalos se acumulam com enredo melhor que escola de samba. É inacreditável.

Pensei seriamente em escrever sobre a Acadêmicos de Niterói. Que caso. Da ideia genial ao tombo histórico em poucas horas. Marketing político em estado bruto — categoria “como não fazer”. A mistura de samba com oportunismo eleitoral não vingou.

A escola que resolveu homenagear o primeiro mandatário, em clima de campanha antecipada, terminou em último e foi rebaixada do Grupo Especial. Parece roteiro de oposição. Foi apenas excesso de confiança.

O tiro eleitoreiro saiu pela culatra. Imagino os bastidores. Alguém deve ter levado, no mínimo, um cartão amarelo. Houve quem evocasse Duda Mendonça e dona Marisa Letícia em suspiros nostálgicos. As pesquisas pós-Carnaval mostraram que o desfile desagradou parte significativa do eleitorado — sobretudo o evangélico, segmento que político nenhum ignora em ano eleitoral.

E não ficou só nos números. Dizem que as vaias nas arquibancadas engoliam os aplausos chapa-branca dos camarotes 0800, povoados por ministros, secretários e asseclas. O povo, quando resolve vaiar, não consulta marqueteiro.

Ironia pronta. Metáfora pronta. E, ainda assim, falta-me ânimo para espremer o assunto. Talvez porque a realidade esteja tão caricata que o cronista corra o risco de virar redundância.

Outra possibilidade foi escrever sobre o episódio de racismo contra Vinicius Junior, na partida entre Real Madrid e Benfica. Tema sério. Doloroso. Necessário. Assunto que deixou o técnico Felipe Luiz, do Flamengo, em saia justa, dias depois, em Buenos Aires, ao oferecer resposta evasiva quando questionado sobre o caso.

Há temas que pedem mais que indignação: pedem maturação. Não cabem como tapa-buraco de crônica com prazo vencendo. Resolvi deixá-lo, por ora, “no oxigênio”, até decantar — como aprendi com Oscar Motomura, CEO da Amana-Key. Alguns assuntos exigem menos espuma, mais substância.

Sem rumo, abro as redes sociais. Encontro resposta a um zap que eu já dera como perdido. A pessoa foi gentil, como sempre foi. Lembro-me bem dela: certo ar de mistério, sorriso enigmático. Nunca consegui decifrá-la. O essencial é que aceitou revisitar velhas lembranças — muitas já empoeiradas na memória.

O que me intrigou foi a demora. A mensagem parece ter viajado na algibeira de um burro, atravessando décadas analógicas antes de chegar. Mas chegou. E isso basta. Vou reviver histórias de que sinto saudade — mesmo que já não me lembre direito delas. Nostalgia seletiva essa nossa.

Pensei: talvez a crônica seja sobre isso. Sobre o passado que editamos para caber na memória. Comecei a me animar. Ato contínuo, lembrei de Cazuza e do “museu de grandes novidades”. Perdi o embalo. Hoje não estou com espírito para antiguidades. Soam-me tristes. Sem pulso.

Levanto. Caminho. Olho o relógio. Hora de alimentar meus cinco cachorros. Eles comem com objetividade admirável — criaturas sábias, imunes a bloqueios criativos e crises existenciais. Lavo as vasilhas. Volto aos pensamentos. Ainda sem tema.

Retorno à cadeira. A tela me encara. Já tentei café, silêncio, música, autopiedade. Nada. Daqui a pouco tem jogo do Flamengo. Não estou animado, mas paixão raramente consulta razão. Sei que não vou resistir.

Então percebo o óbvio: passei esse tempo todo dizendo que não tinha assunto — e falei de todos.

Falei do carnaval rebaixado.
Do racismo que exige coragem.
Da nostalgia atrasada.
Do jogo que ainda nem começou.

Talvez o problema nunca tenha sido falta de tema.
Talvez seja excesso.

Excesso de ruído.
Excesso de urgência.
Excesso de opinião pronta.

E, no meio disso, a dificuldade de escolher o que realmente merece ser dito.

A tela já não está em branco.

No fim, esta crônica é isso: dúvida, hesitação e a constatação de que, em tempos barulhentos demais, escrever exige mais silêncio que posicionamento.

A todos, um bom fim de semana. Um pouco de juízo. Algum discernimento.

Vamô que vamô.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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