De ofensa a orgulho: A história secreta dos apelidos dos times
Descubra como provocações de rivais se transformaram nos maiores símbolos de paixão do Brasil
O grito ecoa das arquibancadas, carregado de provocação e veneno. “Porco!”, berra a torcida rival. Mas em vez de recuar, a massa alviverde explode em um cântico ensurdecedor, abraçando a ofensa como um troféu. Do outro lado da cidade, o mesmo acontece. “Galinha!”, gritam, e a Fiel Torcida responde com ainda mais força.
No futebol, a linha entre a ofensa e o orgulho é tênue, desenhada com a tinta da rivalidade e da paixão. Mas você já parou para pensar na origem dos apelidos dos grandes clubes? Por que o Palmeiras é Porco e o Santos é Peixe? A resposta é uma viagem alucinante pelo coração do esporte.
A virada de chave: quando o xingamento vira hino
Muitas das alcunhas mais famosas do nosso futebol não nasceram em salas de marketing, mas no calor do clássico, como uma arma para ferir o adversário. O que os rivais não esperavam é que essa arma seria tomada, ressignificada e transformada em um escudo de orgulho.
- O Porco palmeirense: Nos anos 60, a rivalidade com o Corinthians estava em chamas. Para provocar os palmeirenses, muitos de origem italiana, os corintianos os chamavam de “porcos”. A ofensa pegou e doeu por anos, até que em 1986, o diretor de marketing do Palmeiras, João Roberto Gobbato, teve uma ideia genial. Ele convenceu o craque Jorginho Putinatti a entrar em campo para uma foto segurando um porco no colo. A imagem virou um símbolo. O clube abraçou o apelido. O que era vergonha virou a mais pura demonstração de força e identidade.
- O Urubu rubro-negro: A história do Flamengo é ainda mais visceral. O apelido “Urubu” era uma ofensa racista gritada por torcedores do Fluminense, associando a grande massa de torcedores negros e pobres do Flamengo à ave. Em 1969, durante um Fla-Flu no Maracanã, um grupo de torcedores rubro-negros, cansado da ofensa, soltou um urubu de verdade no gramado antes do jogo. A ave sobrevoou o estádio e pousou no campo com a bandeira do clube amarrada nos pés. O Flamengo venceu a partida, e o urubu, antes um símbolo de preconceito, tornou-se o mascote que representa a raça e a alma da maior torcida do mundo.
Do mar ao campo: apelidos que nasceram da identidade
Nem todos os apelidos, no entanto, surgiram de uma provocação. Muitos são um reflexo direto da geografia, das cores ou de momentos históricos que definiram a alma de um clube. São nomes que nasceram como uma celebração da própria essência.
- O Peixe santista: A origem do apelido do Santos é tão clara quanto a água do mar. Por ser o principal clube de uma cidade litorânea, a associação com a vida marinha foi imediata e natural. Chamar o Santos de Peixe é celebrar sua conexão com o oceano, com o porto e com a identidade caiçara. É simples, direto e poderoso.
- O Colorado gaúcho: O apelido do Internacional de Porto Alegre vem, simplesmente, da cor vibrante de sua camisa: o vermelho. “Colorado” é a forma apaixonada de se referir àquilo que os define visualmente. É um nome que evoca a paixão que ferve nas veias de cada torcedor no Beira-Rio.
- O Imortal tricolor: O Grêmio carrega uma alcunha forjada no drama. O apelido “Imortal Tricolor” ganhou força após a histórica “Batalha dos Aflitos” em 2005. Com apenas sete jogadores em campo, o time conseguiu uma vitória épica contra o Náutico, garantindo o acesso à Série A. Aquele jogo provou que o Grêmio não morre, não se entrega. Ele é imortal.
A identidade na ponta da língua: o que esses nomes significam hoje?
Gritar “Galo” em Belo Horizonte, “Leão” em Recife ou “Vovô” em Fortaleza é muito mais do que apenas torcer. É carregar no peito uma história de lutas, glórias e, por vezes, de superação contra o preconceito. A origem dos apelidos dos grandes clubes revela a alma de cada torcida. Eles mostram como o futebol tem o poder de transformar o negativo em positivo, o ódio em amor incondicional.
Esses nomes são a prova de que a identidade de um clube é construída tanto dentro quanto fora de campo. É forjada no grito do rival, na celebração de uma vitória impossível e no orgulho de suas raízes. Cada apelido é um capítulo vivo da história, reescrito a cada jogo, a cada gol, a cada vez que a torcida o canta a plenos pulmões.
No fim, não importa a origem. No grito que ecoa da arquibancada, o que se ouve é a voz da história, da luta e de uma paixão que não se explica, apenas se sente. E essa é a verdadeira magia que faz do futebol o esporte mais amado do planeta.
*Com informações de Jovem Pan
