Direito de ir e vir

Agora que somos percebidos como “a Economia Prateada”, ou seja, a geração de homens e mulheres acima dos 60 anos, que se desenvolveram num ambiente adverso e absolutamente desafiador, temos a expectativa de fazer o melhor uso possível desse capital de conhecimentos e experiências. Palestras,
consultorias, treinamento, capacitação e muitas outras formas de transmitir aquilo que vivenciamos em nossas áreas de atuação e que podem reduzir o risco e os impactos para as novas gerações.

Quando ainda em formação, abaixo dos 30, imaginei que poderia sustentar a ideia de que meus descendentes iniciariam no ponto em que parei, em conhecimento, esforço e aplicação de habilidades. As coisas não são bem assim. É claro que se aprende muito com a experiência alheia, mas há tantos
fatores envolvidos que fica difícil garantir que não haverá sofrimento. Na maioria das vezes, os desafios são muito semelhantes no tempo, mas há que se considerar, também, outros tantos fatores envolvidos: o ambiente, a conjuntura, os atores em cena, ou, para utilizar termos da moda, stakeholders,environment, development e, claro, sustainability.

Essa transmissão de todo o cabedal acumulado de saberes, em tese, deveria facilitar a jornada daqueles que se aventuram a viver e desbravar as sendas do crescimento em direção a uma qualidade cada vez melhor no existir das pessoas. Há todo um ferramental disponível para essa transmissão, inclusive
há grupos que fazem a ponte entre os cabelos prateados e as lideranças empresariais que buscam aplainar os caminhos para o sucesso de pessoas e de empresas, num cenário instável como é o do Brasil atual.

Como parte da dedicação ao outro, com foco na emancipação e autonomia das PcD, inscrevi-me em importante academia, em São Paulo, para aperfeiçoar a forma de transmissão desses conhecimentos. Com o intuito primordial de entender os meandros do difundir e alicerçar competências, em especial às
PcD que se interessem pelo empreendedorismo, fiz diversas viagens à Capital Paulista para um curso presencial.

Como uso aparelho ortopédico, que me auxilia no caminhar, passo sempre, nos aeroportos, pelo constrangimento de uma fiscalização em que sou escaneado, revistado, apalpado, quase despido enquanto sou alvo de olhares preocupados de outros passageiros, como se representasse algum perigo para o voo. Mesmo fazendo tantas e tão frequentes viagens nessa mesma rota, o desmonte de minha compostura física se repete a cada passagem, quatro vezes por semana, duas idas e duas voltas. E esse acinte também se opera em idosos, cadeirantes e outras PcD, como se representássemos um perigo
iminente. Como se portássemos um crachá com os dizeres: “ameaça cambaleante”.

A princípio até achava alguma graça naquele processo horroroso. Hoje só o percebo como deplorável.

Contra todas as previsões, mesmo as mais otimistas, muitos de nós, PcD, superamos inúmeros obstáculos para, hoje, sustentarmos a nós mesmos e a outrem. No entanto resta sempre a pecha de incapazes, dependentes objeto de análise por normas estranhas, abusivas, que fazem do simples ato de ir e vir, outro transtorno adido aos tantos que já nos impingem.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

Whatsapp: (61) 99286-6236

Instagram: Mario S R Ananias (@mariosrananias) • Fotos e vídeos do Instagram

Linkedin: (34) Mário Sérgio Rodrigues Ananias | LinkedIn

Site: Mário S. R. Ananias – Sobre Viver com Pólio (mariosrananias.com.br)

Related post

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *