Do Ralado no Joelho ao “Low Battery”: Manifesto de um Sobrevivente dos Anos 90
Outro dia, parei para observar minhas filhas “brincando”. Elas estavam sentadas no sofá, imóveis como gárgulas, os olhos vidrados em celulares e os polegares se movendo a uma velocidade que faria um datilógrafo profissional pedir demissão. De repente, soltam um grito de angústia: “Mãe, a internet caiu!”.
Eu, do alto da minha sabedoria de quem já sobreviveu a três quedas de bicicleta e uma queimadura de taturana, apenas sorri. Na minha época — e sim, eu já cheguei na idade de usar essa frase como se fosse um pergaminho sagrado — a gente não precisava de conexão com a internet; a nossa única “nuvem” era a poeira que subia quando o jogo de futebol de rua ficava sério, ou passava aquele vento forte e subia um redemoinho daqueles.
A Sobrevivência Urbana nos Anos 90
Nos anos 90, a gente não brincava, a gente testava os limites da física e da biologia. O kit básico de sobrevivência era um chinelo Rider (que servia de trave de gol), uma bola de capotão que, quando molhada, pesava o equivalente a um filhote de hipopótamo, e o bom e velho Merthiolate — aquele que ardia tanto que a gente preferia ter a perna amputada a passar o remédio.
- O GPS: Era o grito da mãe às seis da tarde. “Fulanoooo, pra dentrouuu!”.
- O Multiplayer: Eram dez crianças amontoadas num terreno baldio, decidindo no “dois ou um” quem ia ser o goleiro (geralmente o dono da bola ou o mais gordinho).
- A Notificação: Era um assobio no portão. Não tinha “WhatsApp”. Se você queria falar com o Beto, você tinha que ir até a casa dele e gritar “Ô de casa!” até o pai dele aparecer de regata e cara feia.
Hoje, a criança transpira apenas pelo dedo indicador. Se o tablet descarrega, parece que o mundo acabou. Na minha época, o “fim do mundo” era a bola cair no terreno da vizinha brava (provavelmente ela não voltaria inteira).
Como “Desgourmetizar” as Férias da Garotada
Se você olha para as crianças de hoje e sente que elas estão criando raízes no sofá, aqui vão algumas dicas de um veterano para dar um choque de realidade (e de endorfina) nelas:
- O Dia do “Apocalipse Digital”: Escolha um dia da semana para confiscar os carregadores. Sem Wi-Fi, sem 5G. No começo, eles vão parecer zumbis em abstinência, mas depois de duas horas, milagrosamente, eles redescobrem coisas incríveis, como… pedras, gravetos e a própria imaginação.
- Guerra de Bexiga d’Água: É o Battle Royale da vida real, mas ninguém morre e todo mundo fica refrescado. É barato, cansa e a única “skin” que eles ganham é a de “criança encharcada e feliz”.
- Expedição ao Mundo Exterior: Leve-os a um parque que tenha grama (sim, aquela coisa verde que não é pixelada). Desafie-os a subir numa árvore ou a rolar num barranco. O contato com a terra fortalece o sistema imunológico e a alma.
- Culinária Retrô: Ensine-os a fazer o lendário suco de saquinho (Tang) ou um geladinho (sacolé/chup-chup). É a química pura dos anos 90 unindo gerações.
- Jogos de Tabuleiro com Consequências: Esqueça o videogame por uma noite. Pegue um Banco Imobiliário ou um War. Nada ensina mais sobre diplomacia e controle de raiva do que perder todas as suas propriedades para o seu irmão mais novo.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae