Fantasia
O próprio coração parece querer alinhar seu ritmo à vibração que cada golpe da baqueta no couro perfeitamente tensionado espalha no ar. O tempo doce e envolvente de pianos e violinos que os natais suscitam, cede agora espaço à percussão vigorosa e aos sopros cadenciados do Carnaval. As paixões se inflamam. Tudo concorre para que as emoções se esbaldem ao som de surdos, atabaques, pandeiros, agogôs, repiques, tamborins, chocalhos. Mesmo que um pouco esquecida, os saudosistas ainda reverenciam a sonora cuíca que oferece cor e certa malemolência chorosa aos sambas.
Quando a voz reclama algum descanso, os metais assumem o protagonismo, mantendo a harmonia e a sonoridade nesse meio-tempo. Os trompetes que harmonizam os blocos carnavalescos nas ruas e vielas de tantas cidades, como o próprio Rio de Janeiro, Ouro Preto, Nova Lima, Angra dos Reis, Pirapora, Porto
Seguro e milhares de outras.
O frevo, no Recife, talvez não fosse tão espetacular sem a participação icônica do Trombone de Vara, do Bombardino e do Sax Tenor. Seus deliciosos sons envolvem almas e mentes de namorados perenes; amantes de um único e fugaz momento; iludidos cíclicos, sazonais.
Marchas, marchinhas e frevos que se perpetuam na memória de tantos encontram na tuba sua palavra mágica como uma contagiante litania.
Até o grande Chico Buarque valeu-se do som desse instrumento em grandes sucessos como “A Turma do Funil” (Mirabeau, Milton de Oliveira e Urgel de Castro; 1956); “A Banda” (Chico Buarque; 1966). Chegou, esse instrumento de som grave e marcante, a compor o título de uma famosa marchinha de grande sucesso. A antiga e sensacional “Tem Gato na Tuba” (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1947).
Para além dos instrumentos musicais, incluindo as cordas de violões e cavaquinhos, existem as composições que os aconchegam. A letra, muitas vezes genial, de seus versos, apaixonada, despojada, poética, irônica e até combativa, completa o conjunto que impacta o ouvinte. Quase sempre de forma
positiva.
Sempre haverá, no entanto, aqueles arredios, por razões diversas, que não conseguem se deixar levar por essa exuberante alegria. Não os julgo. Simplesmente me fascina essa festa popular.
Momentos inesquecíveis que vivi, subindo o longo aclive da Rua da Bahia até a Contorno, ainda emocionam. Acompanhei a fenomenal Banda Mole, de impagáveis histórias, que hoje são brilhantes memórias indeléveis. Assim como o tempo de juventude aventureira no Bloco dos Sujos, nas manhãs de domingo quando, com minhas inseguras e débeis pernas – dolorosamente plantadas em botas amalgamadas a um velho aparelho ortopédico – resistiam heroicas a tantas ladeiras, pedras; tantos esbarrões.
Era felicidade em seu estado mais amplo, puro e consistente. Mil beijos, mil abraços, mil amassos e nem a menor sombra de qualquer arrependimento. Só muita saudade.
Era a grande festa de fantasias simples ou engenhosas, baratas ou onerosas, porém sem qualquer restrição para sorrir e brincar. Era o tempo de nos livrar de todas as máscaras do cotidiano, de todas a amarras que moldam o próprio sentir ao bel-prazer de outrem. Ali, minha deficiência era só fantasia.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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