Feliz Ano Novo! De Novo.
João Régis Magalhães
Feliz Ano Novo!
De novo?
De novo, sim. Pois, convenhamos: o ano no Brasil só começa mesmo depois do Carnaval. Janeiro é aquela mistura de promessa com ressaca: a gente promete mudar de vida, o corpo pede café em dose dupla, e o calendário desperta em nós a sensação de recomeço, com toques de preguiça e esperança.
Por isso, aqui e agora, sem medo de soar redundante ou anacrônico, dá para dizer com convicção: “Feliz 2026!”
Passada a ressaca das festas momescas, tudo começa, enfim, a entrar na tal “normalidade” — essa entidade abstrata que todo mundo diz que quer, mas ninguém sabe exatamente onde mora. Antes disso, era só aquecimento: lista de promessas, metas ambiciosas e aquela fé renovada de que “dessa vez eu vou”.
Claro, isso não é verdade para todo mundo. Nem todos podem esperar o bloco passar para a vida começar. Para muita gente, o ano começou no dia 2 de janeiro, às 5 horas da manhã, com marmita na mochila e sono acumulado.
No Brasil do subúrbio, o transporte lotado carrega mais preocupação do que sonho. No Brasil do campo, o bicho come e a planta bebe todos os dias, faça chuva ou faça sol. No Brasil dos serviços, não há domingo, feriado, noite ou dia: quem manda é o freguês, e o caixa nunca tira folga.
Mas a crônica de hoje fala de outro Brasil: o da classe média urbana, que divide a vida entre boletos, férias planejadas em dez parcelas sem juros e a esperança quase religiosa no próximo feriado prolongado.
Depois do Carnaval, bate aquela sensação de “agora vai”. Vai o quê? Ninguém sabe exatamente. Mas vai.
Quando tudo parece começar de novo, surge a chance de pensar com mais calma: refletir, rever posições, planejar o futuro e renovar a esperança. Cada ano nos dá a oportunidade de errar menos e acertar mais.
Começar é um exercício de liberdade. O limite é o tamanho do nosso realismo, e do saldo bancário. Recomeçar o que não terminou. Continuar o que vem dando certo. Ajustar o que deu errado. Experimentar. Aprender. E, principalmente, escolher melhor — inclusive as pelejas nas quais vale a pena entrar.
E, sim, é sempre tempo de ser feliz. Não aquela felicidade de comercial de margarina, com mesa farta e sorrisos de aeromoça às seis da manhã, mas a felicidade possível: a que cabe no bolso, no tempo e na paciência de cada um.
Ser feliz é a primeira e maior obrigação que temos com a gente mesmo.
Portanto, meus diletos leitores, dediquem-se a usar o restante do ano para buscar a própria felicidade.
Ser feliz, hoje, é quase um ato de resistência.
E 2026 promete não ser um ano qualquer. Dois capítulos devem ditar o ritmo do tempo: a Copa do Mundo e as eleições. A percepção da passagem dos próximos meses tende a se acelerar, já que esses grandes eventos vão nos distrair e pautar nossa atenção diária.
Em breve, os olhares estarão voltados para o esporte bretão, no maior e mais popular evento esportivo do planeta: a Copa do Mundo de Futebol masculino, assistida por bilhões de pessoas nos cinco continentes.
Torcedores por circunstância, otimistas por necessidade. Futebol: o único momento em que o país inteiro concorda em discordar apenas da escalação. Durante algumas semanas, seremos técnicos, analistas táticos e especialistas em preparo físico — todos formados pela universidade do palpite, da paixão e do sofá.
Adotaremos as cores pátrias com entusiasmo renovado. A cada vitória, o país em êxtase. A cada derrota, a culpa é do juiz, da FIFA ou do alinhamento planetário — sempre é preciso encontrar um culpado.
Com ou sem hexa, a euforia passa. Sempre passa.
Aí entram as eleições.
A temporada oficial do “nós contra eles”.
Entramos na fase das promessas recicladas — em nova embalagem, mesma fórmula. Discursos inflamados, propostas escassas e antagonismo em alta definição.
Período em que se continuará falando como nunca e cada vez mais dos superlativos “master” e “supremo”, do “amigo do amigo do meu pai”, de facções criminosas e de corrupção. De muita corrupção.
Tudo bem produzido e servido ao eleitor como prato do dia.
Neste contexto, a arena principal será a mídia digital. Ataques, cortes estratégicos de vídeo, versões editadas da realidade e fake news circularão com eficiência quase industrial. A verdade, infelizmente, chega depois — ofegante.
Se o padrão das eleições anteriores se repetir, o eleitor escolherá mais uma vez pelo critério do “menos pior”. Não é entusiasmo; é cálculo de danos.
Ainda assim, há um sopro de esperança: as pesquisas indicam espaço para algo diferente, uma tal terceira via.
O eleitor anda cansado dos mesmos discursos dramáticos e de frases que já entraram para o folclore político nacional:
“Nunca antes na história deste país…”
“O povo vai poder voltar a comer picanha…”
“Isso é apenas uma gripezinha…”
“Ivermectina é a solução.”
Será, mais uma vez, a escolha pelo menos pior?
Os extremos têm o talento de dividir com eficiência; são limitantes e excludentes. Em um país continental, miscigenado e profundamente desigual como o Brasil, o caminho mais sensato — e melhor para o bem comum — talvez esteja no centro ou em suas adjacências.
Ou, pelo menos, longe dos gritos mais altos e radicais.
A questão é: quem, afinal, representa de fato esse equilíbrio?
E até quando ficaremos órfãos de candidatos que unam competência, bom senso e compromisso com o bem-estar de todos, indistintamente?
Quem sabe, até as convenções partidárias, surja uma resposta. Ou, no mínimo, uma boa surpresa — o que, em política, já seria quase um milagre laico.
No fim das contas, desejo saúde, sorte e discernimento.
Que tenhamos menos promessas mirabolantes e mais propostas concretas.
Que pensemos antes de compartilhar.
Que discordemos sem romper amizades.
Que escolhamos com consciência e, sobretudo, usemos a memória.
Esta coluna pretende ser apenas isso: um espaço para pensar junto. O oxigênio são os cliques; o combustível é a reflexão. Você lê, concorda, discorda, argumenta — e seguimos conversando ao longo de 2026.
Agora sim.
Feliz Ano Novo!
De novo.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
Facebook: @regismagalhaes: Instagran: @joao_regis_magalhaes