“Mãe, isso é cringe!” — a saga da maternidade moderna

Ser mãe na era moderna é viver num intercâmbio linguístico permanente. A gente fala português. Eles falam… outra coisa. Uma mistura de emoji, gíria, referência de TikTok e sons que parecem erro de internet.

Outro dia, me peguei tentando conversar com minha filha e percebi que, se existir um dicionário oficial da maternidade moderna, ele definitivamente precisa ser bilíngue: português e “jovem atualizado versão 12.4”.

Eu, uma criatura forjada nos anos 90 e 2000, do tempo do “tipo assim”, “tô de boa”, “arrasou horrores”, simplesmente observo a nova safra de adolescentes jogando palavras como tiltada, cringe, slay, vetada, ranço, com a naturalidade de quem respira. E eu ali, segurando meu café, tentando acompanhar como uma usuária que ignorou por anos o botão de “atualizar sistema”.

Outro dia tentei conversar com minha filha (nada) adolescente e a conversa foi mais ou menos assim:

— Filha, dá um help e arruma seu quarto?
Ela levantou os olhos do celular como se eu tivesse interrompido um tratado científico.
Mãe, por favor, tô tiltada hoje.
Tiltada.
Na minha cabeça, apareceu a imagem dela travando igual computador velho.

— Tiltada por quê, meu amor?
Ai mãe, tô cansada, bugada… sem condições. Juro.

Juro.
Quando eu usava essa palavra, era drama. Quando ela usa, é pontuação.

Ela riu. Eu ri. Mas confesso que dei um Google depois.

A maternidade moderna é isso:
A gente cria filhos, mas também cria abas no navegador para entender o que eles estão falando. Somos praticamente bilíngues: português e “jovem fluente avançado”.

Fui pra minha cozinha — minha zona neutra — pensando em como era tudo tão mais simples quando o auge da comunicação adolescente era dizer “massa” ou “choquei” depois de assistir Malhação.

Mas a pior parte ainda estava por vir: o momento em que tentei usar as gírias dela.

— Filha, sua roupa hoje tá muito… hype?
Ela virou o pescoço como quem presencia um acidente em câmera lenta.
Mãe… não fala hype.
— Por quê?
Porque não combina. Com você é estranho.
— E se eu disser que ficou babado?
Mãe, isso é anos 90.
— Exatamente! Uma era de ouro!

Ela rolou os olhos com a mesma intensidade com que eu rolava os meus quando minha mãe dizia “passe fita no vídeo” achando que era sobre o videocassete.

Eu ensino “tipo assim”, ela me ensina “slay”. Eu digo “tô de boa”, ela responde “sem condições”.
E seguimos assim, como duas gerações diferentes tentando encaixar as palavras uma na outra, como peças de quebra-cabeça de caixas diferentes.

Mas no fim da tarde, ela veio sentar do meu lado no sofá.
Sem aviso, sem cerimônia, como filhas fazem desde que o mundo é mundo.

— Mãe… posso ficar aqui só um pouquinho?
— Claro.
Mas não fala pra ninguém que eu tô carente, tá?
— Eu? Jamais.

(Eu falo. Mas só pras amigas mais próximas.)

E ali ficamos: eu, a mãe dos anos 90; ela, filha da era digital.
Cada uma com sua língua, cada uma com seu mundo.
Mas conectadas pelo que não precisa de tradução nenhuma.

O amor — esse sim, universal, sem gíria, sem prazo de validade.

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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