Memória de luta
Num desses momentos de sorte proporcionados pela vida, durante o Carnaval, tive o prazer de topar com um amigo, também PcD, de longa data. Sempre uma alegria esses encontros fortuitos, sem agenda, para nos mostrar que o ponto em que estamos, na vida, foi construído paulatinamente e com o
envolvimento de muitas histórias entrelaçadas.
Entre as lembranças das participações em movimentos sociais, esse amigo resgatou uma conferência, no final dos anos 1980, ocorrida no Palácio das Artes. O tema abordado era o Cartão de Transporte, que franquearia o acesso ao transporte público da capital mineira. Em dois momentos de fala, tanto o
presidente do órgão responsável por essa área quanto o secretário de transporte municipal se empenharam em tentar justificar algumas restrições ao uso do benefício proposto. Queriam que o cartão tivesse um limite diário de quatro viagens. E já consideravam um “favor”, pois seria para que alunos
matriculados em escolas distantes de sua moradia pudessem utilizá-lo duas vezes para ida e outras duas para seu retorno à casa. E ainda, não liberado em fins de semana nem feriados. A justificativa insana era que essas Pessoas com Deficiência ocupariam muito o transporte público, gerando sobrecarga ao sistema.
Aquilo era difícil de ouvir calado, pois ambos os representantes do Poder Público ali presentes pareciam desconhecer completamente a realidade à qual se referiam com empáfia. Por mais adaptados que sejam os veículos, a dificuldade experimentada em seu uso, para inúmeras PcD, é desestimulante. Além disso, na forma como propuseram, consultas médicas, participações em eventos, como aquela própria Conferência, ou mesmo lazer, seriam de todo restringidas.
Quando tivemos a oportunidade de nos exprimir ao microfone, segundo a memória de meu querido amigo, eu disse que “nós, as PcD, conhecemos muito mais do que os senhores o que significa limites, restrições”. Ele chegou a guardar em áudio o episódio. Na continuação, conseguimos adesão massiva
ao pleito da maioria das pessoas na plateia, bem como a conquista definitiva do passe, a liberação plena do uso do cartão como é ainda hoje.
A falta de conhecimento da realidade do outro geralmente leva a profundas distorções no atendimento de demandas simples ou pontuais. Quem trabalha com público, avalio, deveria ter um mínimo de discernimento para propor ou implantar medidas com impacto na vida das pessoas, especialmente aquelas percebidas como hipossuficientes.
O humor mordaz com a própria deficiência pode mostrar o quão distante da realidade algumas pessoas se postam. É o caso do ótimo humorista cego, Geraldo Magela, que aceita ajuda de um vidente que o leva até o canteiro central numa larga avenida de duas pistas. Ali chegando é indagado se quer que ajuda até o outro lado também. Ele ironicamente responde: “não, obrigado!
Eu moro aqui mesmo”.
Fazendo uma analogia, Jeffrey Robert Immelt, executivo industrial americano, foi ex-CEO da gigante General Eletric por longo período até sua derrocada em Foi acusado de não ter feito bem o seu trabalho. Ele respondeu que tudo era “muito fácil quando é a outra pessoa que tem de fazer”.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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