Mestre Ciça: quatro vezes campeão do carnaval, músico faz parte da fase vitoriosa da Viradouro
Encantamento causado pela homenagem a Mestre Ciça leva escola de Niterói a vencer o terceiro carnaval em seis anos
A euforia causada pela Unidos do Viradouro na Avenida, na noite de segunda-feira, deu a ela o título do carnaval de 2026, com notas 10 do início ao fim da apuração, realizada na tarde de ontem, na Cidade do Samba. Homenageando Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, seu diretor de bateria, o desfile já surpreendeu ao trazê-lo como destaque da comissão de frente: um tripé em formato de apito, em alusão ao instrumento usado para reger os ritmistas, era transformado nos arcos da Praça da Apoteose, com o protagonista no alto, aclamado pela escola de Niterói e pelas arquibancadas.
A Viradouro gabaritou todos os quesitos na apuração (levou apenas duas notas 9,9, que acabaram descartadas) e terminou com 270 pontos, um décimo à frente de Beija-Flor e Vila Isabel (os critérios de desempate deram o vice à agremiação de Nilópolis), as duas outras favoritas ao título.
O quarto campeonato da escola de Niterói — seu terceiro desde 2020 — a mantém no topo do ranking da Liesa dos últimos cinco anos. Após o anúncio de três notas 10 no último quesito, samba-enredo, a agremiação já não poderia mais ser alcançada. A festa tomou conta da praça de eventos da Cidade do Samba.
“Um desfile catártico”
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Torcedores da Viradouro gritavam por Mestre Ciça durante o início da apuração: “Olê, olê, olê, olá, Ciça. Ciça!”, dizia o coro. O clima também era de empolgação com Juliana Paes, rainha de bateria da vermelho e branco, que se disse em êxtase durante e após o desfile.
— Foi um desfile catártico, pelo menos para mim e para o Ciça — afirmou, sorridente.
Juliana contou que aceitou pelo amigo voltar ao posto de rainha de bateria e não disse se fica para o próximo carnaval:
— Eu estava ali como coadjuvante do Ciça. Do ano que vem, a gente fala depois.
A agremiação foi aplaudida também pelos adversários. Após a nota 10 definitiva, todos se levantaram para louvar de pé o mestre de bateria, que falou da emoção e disse que cumprirá a promessa de parar de fumar.
— Esse choro aqui é de alegria, sabe por quê? Venceu o sambista, venceu o carnaval — disse o artista de 69 anos. — Estamos no maior carnaval do mundo.
Juliana Paes chorou durante toda a apuração; a musa Belinha Delfim levantava a escola a cada silêncio apreensivo antes do título; e o presidente Marcelinho Calil ergueu Ciça nos braços na hora da vitória.
Antes do início da apuração, Calil disse estar confiante em um bom resultado, mas evitou falar em vitória antecipada.
— Quem fala de favoritismo são vocês da imprensa — declarou. — Eu não tenho noção do todo, pois acompanho a escola de perto da bateria. Aqui, todos estão nervosos como o Mestre Ciça. A gente acertou no enredo ao homenagear em vida um dos grandes do carnaval.
Ele disse desconhecer a polêmica envolvendo o Salgueiro, que divulgou um manifesto antes do desfile, dizendo que confiava na lisura da apuração. A escola da Tijuca terminou em quarto lugar, três décimos atrás da campeã:
— Não acompanhei.
Após o sexto quesito, fantasia, a escola de Niterói sustentou a liderança com 180 pontos, mantendo 100% de aproveitamento, vantagem que permanceu intacta após a divulgação das notas de enredo.
Virgínia confirma briga
A rainha de bateria da Grande Rio, Virgínia Fonseca, chegou para acompanhar a apuração e confirmou que o presidente da escola brigou com sua equipe.
— É aquilo mesmo que está na Internet — disse a influenciadora, sem se estender no assunto.
A vitória da Viradouro — que chega ao seu quarto campeonato, após os títulos de 1997, 2020 e 2024 — é também um prêmio a todos os sambistas. Com a ode ao “mestre dos mestres”, apelidado de Caveira, a agremiação de Niterói lembrou-se da trajetória do homenageado, iniciada em 1971 como passista da Unidos do São Carlos, escola que viria a se tornar a Estácio de Sá, a primeira em que Ciça comandou ritmistas (em 1989).
Estácio, União da Ilha, Grande Rio e Unidos da Tijuca, por onde ele passou, foram lembradas no desfile, que teve a presença de personagens como Claudinho e Selminha Sorriso, mestre-sala e porta-bandeira que completaram 30 anos de Beija-Flor. Eles tinham acabado de desfilar pela agremiação de Nilópolis e voltaram à concentração às pressas para brilhar sobre o carro que homenageava a Estácio, cujo pavilhão defenderam quando Ciça foi mestre, nos anos 1990.
Diretores de bateria e puxadores das mais diferentes agremiações, do Grupo Especial e da Série Ouro, também marcaram presença no desfile. A própria Viradouro contou com retornos: além de Juliana Paes, de volta após 18 anos; Erika Januza (rainha até o último carnaval) foi destaque de carro; e o carnavalesco Paulo Barros, atualmente sem escola, desfilou em um tripé, atravessando a Avenida aos prantos.
*Com informações de Extra