Netos

Nem nos meus melhores sonhos imaginei que teria netos. Talvez nem filhos. Havia uma superstição, quando fui criança, talvez baseada em relatos e sustentada por medos ancestrais, em Monlevade, de que Pessoas com Deficiência viviam pouco. Nem estou cogitando aqui em fazer algum trocadilho
que leve em conta o termo “viver” com o sentido conotativo da boa qualidade de vida. “Os aleijados são os marcados por Deus!” Ouvi mais de uma vez, como se aquela condição descendesse de um castigo divino por eventual expiação de culpa atribuída a outra pessoa. Fazia pensar e buscar entender a
razão pela qual “o Divino”, em sua santa sabedoria, faria uma criança, no meu caso, cumprir uma pena perpétua sem sequer ter sido réu, porquanto ainda não nascido, em coisa merecedora de punição, mas que o apenado desconhecesse seu fato gerador.

Se aquelas premonições tinham algum sentido, acredito que meu prazo de validade já venceu há muito tempo.

Próximo dos setenta anos, tenho a imensa alegria de comemorar, ainda que fisicamente distante, os dez anos de vida de um de meus amados netos. Nícolas, em Belo Horizonte, faz hoje, dia 04 de março, mais um ano de vida saudável e na sua plenitude de criança. Quanto orgulho e felicidade saber que tão maravilhoso presente da vida a mim desmancha todas as sombras que a ausência de informação espalhou no caminho que, na vida, deveria percorrer.

Além de todos os momentos de êxtase, desde o seu nascimento, seu riso desdentado e lindo, passando pelas rudimentares palavras balbuciadas, os primeiros dentinhos, os firmes e decididos dois pequenos passos até a queda segura nos braços carinhosos do pai, chega o momento de comemorar uma década de muito amor. Mais que festejar, estamos sempre na torcida pelo seu sucesso em seus melhores projetos e que que a existência lhe seja parceira e não adversária. Tomara que já tenhamos aparado, senão todos, pelo menos a maioria dos espinhos, ou os mais pontudos e doloridos, que as veredas do
existir dispõem a cada um de nós em nossa jornada.

Ser avô PcD pode restringir algumas brincadeiras ou jogos comuns às crianças. Estão juntos nesse viver especial de idoso, o cansaço natural pela passagem do tempo e as restrições de longa data pela sequela de poliomielite. Mas há momentos impagáveis, como quando cansado de tantas brincadeiras com outras crianças, ele se recosta em nosso colo, adormece e se entrega aos sonhos. Ou, ainda, quando com expressão desolada pede para não ir ao banho ainda; ficar vendo tv mais um pouquinho… E claro, as tiradas de criança que dão cor aos dias mais nublados e leveza aos momentos de maior tensão ou
preocupação.

Recordo de uma cena, como muitos outros avós hão de se lembrar com seus netos, que foi muito hilária: eles brincado de correr passa lépidos por mim. O Nícolas também passa e esbarra em mim, que desequilibro. Meu filho ralha com ele: – Cuidado! Você quase derruba o vovô. E ele retruca chateado: – Num pode nem encostar!…

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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