O Oscar que não veio. E a liberdade que não pode ir
João Régis Magalhães
Perder um Oscar pode ferir o orgulho de um país por alguns dias. Perder liberdades pode ferir sua democracia por muito mais tempo.
Hip-hip-hurra! O Oscar é nosso!
Ou melhor… não é.
Não foi desta vez. A estatueta não veio. E, como sempre acontece quando a expectativa sobe demais, a realidade cobra seu preço: instala-se um pequeno luto coletivo.
Paciência. Ganhar e perder faz parte do jogo.
Com quatro indicações ao Oscar 2026, O Agente Secreto alimentou sonhos. Houve quem já desse como certo o bicampeonato. Afinal, no ano passado, Ainda Estou Aqui se tornou o primeiro filme brasileiro a conquistar a cobiçada estatueta de melhor filme estrangeiro. E este ano parecia mesmo promissor.
A possível vitória de Wagner Moura também mobilizou torcidas e certezas prematuras — inflou um ufanismo que, às vezes, não apenas se contrapõe, mas chega a superar o velho “complexo de vira-lata” (Viva Nelson Rodrigues!).
Mas o prêmio ficou com Michael B. Jordan, por sua atuação em Pecadores.
Acontece.
Ainda mais quando o roteiro nunca esteve nas nossas mãos — porque o Oscar, convenhamos, é uma festa em casa alheia. A expectativa sobe, a realidade corta e sobra, como sempre, a conhecida ressaca da frustração.
Frustração, aliás, é quase um patrimônio cultural brasileiro. Desde as lendárias duas polegadas que teriam custado a coroa de Miss Universo a Martha Rocha, em 1954, vamos acumulando derrotas simbólicas e aprendendo, entre um suspiro e outro, a seguir em frente.
Como ensinou Beth Carvalho, em um daqueles sambas que funcionam como verdadeiros manuais de sobrevivência emocional:
“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.”
E a gente levanta.
Ano que vem tem mais. O cinema brasileiro segue forte, criativo e relevante. Prêmios ajudam, claro. Mas não definem a grandeza de uma cinematografia.
Até aí, tudo dentro da normalidade.
O problema é que, enquanto o país se distraía com o Oscar, um tema infinitamente mais sério passou quase despercebido.
Quase em silêncio.
Porque, às vezes, o que ameaça à democracia não é o barulho dos ataques — é o silêncio das reações.
A liberdade de imprensa.
Recentemente, uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, autorizou busca e apreensão contra o jornalista Luís Pablo, do Maranhão, em razão de reportagens investigativas envolvendo o ministro Flávio Dino, também integrante da Suprema Corte.
Foram levados celulares, computadores e outros instrumentos básicos do exercício do jornalismo. O objetivo: identificar as fontes utilizadas na investigação — justamente aquilo que a Constituição protege de forma expressa. Uma iniciativa que, por si só, já acende um sinal de alerta sobre os limites entre a apuração legítima e o risco de intimidação.
E é aqui que mora o verdadeiro problema.
Não se trata de um jornalista.
Não se trata de um ministro.
Não se trata de um fato isolado.
Trata-se do precedente.
Porque, quando o jornalismo investigativo passa a conviver com o risco de medidas capazes de intimidar a apuração, a mensagem que se espalha é simples e perigosa: investigar pode custar caro.
E, quando jornalistas começam a ter medo, quem perde não são apenas eles.
É a sociedade.
A Constituição de 1988 não protege a liberdade de imprensa por generosidade. Protege por necessidade democrática. Porque países que dificultam perguntas acabam condenados a conviver apenas com versões oficiais.
E democracia que só tolera versões oficiais tem outro nome.
O Supremo Tribunal Federal tem a missão de ser o guardião da Constituição. Justamente por isso, cada decisão que tangencia direitos fundamentais precisa ser observada com cautela redobrada. Não apenas pelo efeito imediato, mas pelo precedente que projeta no tempo.
Democracias raramente acabam apenas por grandes rupturas. Às vezes, desgastam-se lentamente. Em pequenas concessões. Em silêncios convenientes. Em medos sutis que começam, perigosamente, a parecer normais.
E nada deveria ser mais anormal, numa democracia, do que um jornalista se perguntar se ainda vale a pena investigar.
Rui Barbosa já alertava:
A imprensa é a vista da nação.
Se a imprensa perde a liberdade, a nação perde a visão.
John Milton, poeta inglês, ainda no século XVII, foi igualmente claro ao defender a liberdade de saber, de falar e de argumentar como base de todas as demais liberdades.
E Louis Brandeis, juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, talvez tenha deixado a síntese mais precisa:
A luz do sol é o melhor desinfetante.
Mas, para haver luz, alguém precisa acender o interruptor. Ou ter coragem de abrir as cortinas.
Esse alguém, quase sempre, é o jornalismo.
Perder um Oscar fere o orgulho por alguns dias. Uma derrota elegante, dessas que viram estatística e depois memória.
Mas o enfraquecimento da liberdade de imprensa não vira apenas memória.
Vira costume.
E, quando uma sociedade se acostuma com limites à informação, o que começa como exceção pode, silenciosamente, transformar-se em regra.
O Oscar não veio.
Tudo bem.
O que não pode ir embora, sem que a gente perceba, é o direito de perguntar, investigar e informar.
Porque estatuetas simbolizam reconhecimento.
Mas a liberdade de imprensa simboliza algo infinitamente maior: o direito de uma sociedade continuar sendo autora da própria história, e não mera espectadora dela.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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