Trocar a roupa da alma

Por João Régis Magalhães

Hoje é dia de escrever a crônica.
A primeira ideia foi falar sobre viagens. Estou fora de Brasília por alguns dias e nada mais natural do que escrever sobre o que se vive. A matéria-prima da crônica costuma estar por perto. Basta olhar em volta.
A inspiração vem de uma frase emoldurada numa pequena peça de madeira que a Cláudia comprou não sei onde e que hoje mora num canto discreto do hall que leva aos quartos da minha casa. Sempre que passo por ali — principalmente quando começo a planejar uma viagem — paro para reler:
“Viajar é trocar a roupa da alma.”
Uma delicadeza de Mário Quintana. Um presente aos viajantes — e também aos que apenas sonham viajar.
Um bom tema. Leve. Quase feliz.
Mas…
Falar de viagem costuma despertar aquela pontinha de inveja saudável. E o adjetivo importa, porque a inveja quase sempre aparece só pelo seu lado feio.
Existe a inveja boa. Aquela que não corrói, não diminui ninguém. Aquela que apenas cochicha:
eu bem que poderia estar ali.
Viajar em pleno março, com as aulas começando e o trabalho a todo vapor, não é para qualquer um. Esse pequeno luxo costuma ficar reservado a poucos: aposentados, herdeiros e alguns raros profissionais da desocupação.
Viajar na baixa estação tem suas vantagens: menos filas, mais silêncio, preços mais civilizados, gente menos apressada.
Às vezes até mais humanidade.
Mas — como quase tudo na vida — sempre aparece um porém.
Às vezes um todavia.
Ou um contudo.
Mesmo viajando, fora da rotina e distraído com as novidades do caminho, minha cabeça insiste em voltar aos assuntos que dominam o noticiário e as conversas do país.
E olha que não estou em qualquer lugar.
Estou em Florianópolis.
Uma cidade linda que, apesar da natureza exuberante e da herança açoriana, anda politicamente mais à direita do que considero razoável. Uma pena.
Conheci Florianópolis nos anos 80. Era uma cidade provinciana, pacata, gentil. Daquelas que fechavam o comércio na hora do almoço.
Hoje parece outra. Mais desconfiada. Mais áspera. Às vezes até xenófoba.
Recentemente, o prefeito declarou que a cidade não será “depósito de pessoas em situação de rua vindas de outros municípios” e que pretende “devolver” quem chegar sem plano de vida, emprego ou moradia.
Ouvi isso da motorista do aplicativo que peguei no aeroporto. Estranhei. Fui conferir.
Era verdade.
Na hora me ocorreu um pensamento inevitável:
Trump anda fazendo escola por aqui.
Apesar da tentação de escrever sobre essa nova vocação para a intolerância, minha cabeça continua voltando para outro assunto.
Não tem jeito.
O pensamento sempre volta.
O caso Master.
Tento me distrair com as paisagens. Com as praias. Com a sequência de camarões na Lagoa da Conceição.
Não resolve.
De repente, lá está ele outra vez, batendo à porta da crônica.
Porque, gostemos ou não, é o assunto do momento. Uma história com potencial para mexer com a vida de muita gente. Talvez até influenciar as eleições. Talvez até decidir destinos.
O caso Master tem todos os ingredientes para ser o carro-abre-alas de 2026.
Deve haver uma pausa durante a Copa do Mundo — o futebol ainda consegue anestesiar o país — mas depois tudo volta.
Sempre volta.
E, ao que tudo indica, envolve gente grande.
Muito grande.
Gente suprema, até.
As primeiras revelações sobre as estripulias de Daniel Vorcaro — personagem que saiu do anonimato direto para o papel de vilão nacional — sugerem que a história pode ser muito maior do que parecia.
O que começou como escândalo financeiro pode terminar como algo bem mais grave.
Há cheiro de organização criminosa no ar.
O que veio a público até agora dessa trama nada republicana é estarrecedor. Revela o grau de apodrecimento moral a que chegou o chamado andar de cima.
Um episódio simbólico dessa promiscuidade entre poder e dinheiro foi o convescote regado a uísque Macallan, em Londres, reunindo ministros do Supremo, autoridades da República e o anfitrião do escândalo.
Quando histórias assim aparecem, reaparecem também os velhos personagens: cobiça, impunidade, desprezo pelo interesse público e uma impressionante elasticidade moral.
Talvez nos iluda o fato de que os grandes esquemas quase sempre são feitos por poucos — e para poucos — em silêncio, em redes invisíveis que se cruzam nos labirintos do poder.
Como naquela música do Chico:
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa…
O caso Master lembra aqueles cadáveres políticos enterrados fundo demais e por tempo demais.
Uma hora o cheiro aparece.
E com ele vem o roteiro conhecido: revelações, denúncias, delações premiadas, documentos, gravações.
Tudo devagar.
Pingando.
Como deve ser.
O importante é manter o interesse público acordado. Porque, às vezes, até semideuses descobrem que a gravidade também vale para eles.
Servidores que deveriam servir acabam servindo a si mesmos. Uma aristocracia burocrática bem paga, cheia de penduricalhos, que posa de guardiã da moralidade enquanto trata o Estado como propriedade privada.
Empresários sempre prontos para mamar nas tetas públicas.
Para o cidadão comum — aquele que acorda cedo, enfrenta trânsito, trabalha no que aparece e sonha com um prêmio modesto da Lotofácil para levar a família a um almoço de domingo — esse mundo parece ficção.
Mas não é.
No Brasil, escritórios de advocacia muitas vezes não faturam milhões por excelência técnica, mas porque têm o sobrenome certo. O parentesco certo. O telefone certo.
Assim funcionam certas engrenagens invisíveis.
Este é, afinal, um país de castas.
Aqui, mérito ajuda.
Mas raramente basta.
É preciso sorte. Muita sorte.
E relacionamento.
Sem padrinhos fortes, talento sozinho muitas vezes não abre portas.
Abre, quando muito, a esperança.
E talvez por isso, mesmo caminhando pela Praia dos Ingleses, por Canasvieiras ou pela Praia Brava — ainda impactado pela história triste do cãozinho Orelha — e olhando para um mar que parece não ter pressa, minha cabeça continue voltando ao caso Master.
Porque viajar pode até trocar a roupa da alma, como escreveu Quintana.
Mas o Brasil não é uma roupa.
Não é uma mala.
Não é algo que se despacha no check-in.
O Brasil é uma pele.
E certas notícias nos lembram uma verdade incômoda:
por mais longe que a gente viaje,
ainda estamos morando dentro dela.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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