Uma mão lava a outra, as duas lavam a…ih! acabou a água.
Por Aloísio Nascimento
Só o pior roteirista de Hollywood escreveria um enredo envolvendo personagens atuando sem scripts e dois bancos problemáticos : um deles (BRB) governamental sob gestão política, sujeito a chuvas, trovoadas e sabe-se lá o que mais; o outro (Master) controlado por um empresário sem nenhum escrúpulo, respeito ou alinhamento com as regras do mercado financeiro, mas com uma rede de apoio importante no executivo, legislativo e judiciário.
Executivos, oportunistas, heróis e vilões se movimentam, articulam e negociam em mansões luxuosas, escritórios suntuosos, jatos, iates, assinam contratos milionários, deixam vazar rompimento de relações conjugais (conveniência pra não caracterizar conflito de interesse?), tudo em locações dignas de uma ilha da fantasia. Mas tudo parece muito real. Coisa de Hollywood.
Sujeira
O fio condutor do enredo atrasa o relógio do tempo em alguns anos quando José, um advogado medíocre, ganha uma cadeira na mais alta Côrte de justiça. Ele e seu colega Gilmar são expostos em investigações do COAF (órgão bisbilhoteiro da Receita Federal que controla movimentações financeiras) por operações atípicas e dinheiro esquisito em contas nos bancos Mercantil e Bradesco. Os bancos, claro, eram clientes dos escritórios de advocacia das mulheres deles.
Pouco tempo depois José teve um problema mais sério: a revista Crusoé publicou trechos de depoimento do empreiteiro Marcelo Odebrecht ligando ele ao esquema de corrupção da Lava Jato. À época presidente da Côrte e sob forte suspeita, José pediu ao colega Alexandre que tomasse providências contra a revista, que era tudo “fake news”. O amigo acreditou, exagerou na dose e censurou a revista, uma decisão autoritária que arranhou sua imagem de democrata. Por pouco tempo: até ontem ele era aclamado como herói por ter livrado o país de outro golpe de milicos estrelados que recebiam ordens de um capitão reformado, ex-presidiário em quartel do RJ por infringir o regimento disciplinar do Exército.
Atualmente Alexandre vive um inferno astral pesado diante de revelações graves do seu envolvimento no caso do Banco Master (liquidado pelo BC) e o contrato milionário assinado entre o banco e o escritório de advocacia da mulher dele. Difícil explicar mancha de batom na cueca. Mas José mostrou gratidão e tranquilizou o amigo : xacomigo. Sem combinar com os russos, entrou no caso, articulou, pegou carona no jato do banco até o Perú pra ver seu Palmeiras perder a taça Libertadores pro Flamengo, botou o processo embaixo do braço, decretou sigilo e dividiu parte da encrenca com o Davi, um político ardiloso que também parece estar enrolado no caso. Como outros personagens do legislativo e executivo.
Entre amigos como José e Alexandre vale o ditado “uma mão lava a outra, e as duas lavam a …” O problema é que faltou água e a sujeira está exposta, cheirando muito mal. José apostou alto na sua estratégia pra ajudar o amigo e está levando porrada por isso, enquanto o chefe do Palácio faz de conta que nada sabe pra não atrapalhar a renovação do contrato da moradia que ocupa com a incansável primeira-dama. O roteirista não escreveu o final da trama porque pode acontecer qualquer coisa, inclusive nada, como em outros casos sérios, tipo a Lava Jato. Hollywood ou a nova velha chanchada brasileira?
*Com informações de Portal OrbisNews