Venezuela
Em razão do arresto, pelos americanos, do ditador do país caribenho, nossos vizinhos ao norte, sob diversas acusações, incluindo liderança no tráfico internacional de drogas, esse assunto se tornou frequente em quase todas as rodas de conversa. Também ganhou destaque especial na mídia de todo o
mundo. E não era para menos. A intervenção de uma superpotência em território estrangeiro gera preocupações quanto aos desdobramentos para outras nações.
No entanto, há que se reconhecer, a história contradiz o receio da posição imperialista equivocadamente usada como pecha aos Estados Unidos. Ao final da Segunda Grande Guerra, a título de exemplo, os norte-americanos poderiam anexar diversas nações e mantê-las como suas colônias ultramarinas. Mas, ao final, retornaram ao seu país e só deixaram nos solos europeu, asiático e africano os corpos de seus soldados que ali estiveram para libertar aqueles povos do jugo nazifascista. E, mesmo agora, nesse incidente, não impuseram uma administração ou liderança por cidadãos americanos em substituição ao
déspota venezuelano preso e deposto.
Nesse burburinho geopolítico, que envolve poderosos, homens, ideias e nações, resgato da memória uma infância repleta de momentos similares e de proporções absolutamente pequenas. Todavia, a afetação naquele microcosmo, para os envolvidos, a meu ver, guarda semelhanças importantes.
Quando criança, em razão das minhas sequelas de poliomielite, muitas das brincadeiras, comuns à maioria dos outros meninos e meninas, eram impeditivas para alguém cujas pernas, paralisadas, não cumpriam o mínimo que desses membros se espera. Com isso, era corriqueira a exclusão. Ainda assim, não faltava disposição redobrada para tentar acompanhar o desenvolvimento natural.
Isso, às vezes, incomodava alguns, um pouco mais velhos, que se arrogavam uma liderança que, na verdade, não tinham, não conquistaram por mérito. Na busca pueril de tomar e manter essa suposta autoridade, se valiam de sua condição física em relação às PcD e a outras crianças mais jovens, mais frágeis.
Não foram tão raras as vezes em que tomamos tabefes, chutes, socos e empurrões para nos impedir o direito de expressão ou de escolha. Éramos vulneráveis. Por mais que nos empenhássemos para deter os ataques e imposições, não tínhamos as condições mínimas de fazê-lo. No nosso caso, não nos foi retirada tal prerrogativa, éramos apenas muito mais jovens e alguns éramos PcD por circunstâncias naturais.
E é exatamente nessa conjuntura que percebo, em proporção sabidamente menor, a semelhança daquelas experiências com a atual geopolítica: se algum de meus irmãos maiores, ou vizinhos conscientes, imbuídos do espírito de justiça não intercedesse em nosso favor, estaríamos relegados, então, à condição de “saco-de-pancada” dos marmanjos metidos a fortes, que se arrogavam a donos
da rua.
Essa não é uma história de reles vitimização. Nunca deixamos de lutar, não nos acovardamos, mas éramos, de verdade, hipossuficientes. Sem a intervenção de terceiros, as agressões e os consequentes traumas seriam um componente doloroso de nossa história e da formação de nosso caráter quando adultos. Para viver em clima de constante medo frente a quaisquer adversidades ou para, de alguma forma, replicar toda a violência que nos foi imposta.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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