A fé e o milagre
Quando um colega de escola, nos idos de 1976, disse que voltou a enxergar por intervenção de um xamã de uma tribo indígena no então distante Pará, quase todos aqueles secundaristas presentes demonstraram
incredulidade. Alguns, de família cristã, avaliaram que milagres só se concretizavam por intermédio de santos ou do próprio Jesus. Uns poucos já demonstravam uma percepção que começava a se delinear, fundada no
ateísmo, materialismo que só creditavam as recuperações de saúde aos avanços da medicina, da ciência.
Passaram-se 50 anos e ainda hoje, como naquela época, não julguei os crentes nem os descrentes. Aquilo que nos constitui, desde que não cause danos a outrem, não deve, a meu ver, ser objeto de julgamento.
Acreditei no colega, indígena, que demonstrava grande respeito pela cultura em que ele e seus familiares foram criados. No Brasil de então, o catolicismo era majoritário. Meus pais viviam a religiosidade cristã e nos
ensinaram, aos filhos, os valores bíblicos desde muito cedo. Todos passamos pelos ritos de Batismo, Crisma, “Primeira Comunhão”. Íamos às missas aos domingos e passamos, algumas vezes, pelos confessionários.
Era um tempo de muitas mudanças para todos os jovens alunos ali, muitos dos quais nem conseguiam ter a percepção adulta mais ampla do cenário sociopolítico e econômico da época. O chamado “Milagre Brasileiro”, que empregava o termo religioso para nomear o grande crescimento econômico da época, inaugurado com a própria década de 1970, começava a perder fôlego. E começava a arrastar consigo as muitas esperanças de uma vida com mais qualidade e oportunidades. Isso foi fundamental para a formação de muitos daqueles estudantes. Alguns se agarraram à perspectiva padrão de que, trabalhando muito, conseguiriam galgar posições sociais confortáveis. Outros esperavam mudar o cenário político com uma participação mais efetiva ou aguerrida. Outros tantos, acredito que a maioria, faziam o que se esperava que fizessem, ao estilo do que o ótimo samba “Deixa a vida me levar” (2002), de Serginho Meriti e Eri do Cais, sucesso na voz de Zeca Pagodinho.
Vendo meus netos, nesta semana das crianças em que o dia 12 de outubro coaduna o Dia das Crianças e o da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, retomo o milagre do jovem índio e o meu próprio.
Aos seis meses de vida fui acometido pela poliomielite que deixou importantes sequelas. Atrofia muscular total na perna esquerda e parcial na direita. A lesão implicava, pela avaliação médica, que eu nunca caminharia sem auxílio de órteses. Minha saudosa mãe, nunca perdeu a esperança. Nunca se permitiu duvidar de sua fé.
Aos quatro anos fomos à cidade de Urucânia/MG, a apenas 109 km de Monlevade. Por estrada de terra malconservada, viajando na carroceria de um FêNêMê, pau-de-arara, a viagem foi cansativa, desconfortável e muito desgastantes para os romeiros. Todavia minha mãe tinha convicção de minha recuperação. Sua fé lhe assegurava isso. Com a bênção do Padre Antônio, ainda que parcialmente, se cumpriu o esperado caminhar. Milagre de Nossa Senhora Aparecida, pelo fervor da fé de minha mãe.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
Whatsapp: (61) 99286-6236
Instagram: Mario S R Ananias (@mariosrananias) • Fotos e vídeos do Instagram
Linkedin: (34) Mário Sérgio Rodrigues Ananias | LinkedIn
Site: Mário S. R. Ananias – Sobre Viver com Pólio (mariosrananias.com.br)