O poder, o dinheiro e a natureza humana.
Por João Régis Magalhães
“Esses temas entristecem e corroem a alma…”.
Um velho amigo me disse isso depois de ler um texto meu. E, confesso, a frase me desmontou mais do que imaginei.
Ele se referia a um texto em que trato do escândalo do Master e de seus personagens habituais: corrupção, lavagem de dinheiro, rede de influência, poder. Muito poder.
Num primeiro momento, não dei muita atenção.
Mas a frase ficou. E algumas frases têm esse estranho talento: não gritam, simplesmente ecoam.
Fui dormir com ela martelando na cabeça.
Foi uma noite longa.
Minha mente parece ter ficado de plantão a noite inteira, como em uma UTI ou numa delegacia da Baixada Fluminense, tentando encontrar respostas. Em vão.
Acordei cansado.
E, pior, sem respostas.
Raramente isso acontece. Costumo dormir o sono dos justos. Ou, pelo menos, me esforço.
A questão que ainda tento decifrar é a relação entre o poder e o dinheiro — ou, se preferirmos inverter, dinheiro e poder.
Às vezes, fora da multiplicação, a ordem dos fatores pode alterar o resultado. Mas isso não é tão relevante.
O que realmente importa é entender como essa engrenagem funciona — a velha sociedade entre dinheiro e poder, que acompanha a humanidade desde os primórdios da civilização, percebeu que mandar podia ser mais interessante do que apenas possuir.
Algumas perguntas são inevitáveis.
O dinheiro e o poder sempre caminham juntos?
Como irmãos siameses? São interdependentes.
Ou não? Podem viver separados?
A história sugere respostas diferentes.
Há quem defenda que o poder se basta. Que o poder é supremo. Genuíno. Que tudo o mais é acessório.
O poder pelo poder. A luta pela posição de mando. Pelo direito de decidir. Quem o detém é temido. É obedecido. É quem tem a palavra final.
O poder é o instrumento que transforma vontade em realidade. Que transforma ideias em fatos. Que transforma influência em destino coletivo.
Nesse tipo de relação, quando o poder é causa e consequência ao mesmo tempo, o dinheiro — como usufruto pessoal — tende a se tornar algo menor. Em algumas circunstâncias, desprezível. Impuro até.
Esse é o poder de quem realmente ama o poder.
A recompensa não é pecuniária; é quase existencial — ela se dá pelo prazer de ver as coisas acontecerem, de se transformarem, simplesmente porque quem detém o poder quis assim.
Talvez um bom exemplo dessa lógica seja Getúlio Vargas. Um homem que governou com muito poder o Brasil por quase quinze anos e que, segundo registros biográficos, terminou seus dias com um patrimônio similar ao que havia herdado da família da esposa.
Nada de fortunas fabulosas. Nenhum dinheiro escondido em paraísos fiscais, tão comuns nestes tempos estranhos. Apenas o que a vida lhe permitiu juntar, limpo, sem atalhos e sem o peso do que não lhe pertencia.
Quando penso nessa diferença entre poder e dinheiro, sempre lembro de uma frase de House of Cards.
Frank Underwood (Kevin Spacey), protagonista da série, olha para a câmera e, como se confidenciasse um segredo, sentencia:
“Ele escolheu o dinheiro em vez do poder. Nesta cidade, quase todo mundo comete esse erro. Dinheiro é a mansão no bairro nobre que começa a desmoronar depois de dez anos. O poder é o velho edifício de pedra que resiste por séculos. Não respeito quem não sabe a diferença.”
Era sua forma de explicar por que o seu ex-assessor de imprensa havia trocado a política pelo lobby.
Mas existe também o caminho inverso. Talvez o mais comum. Os que buscam o poder como atalho para o dinheiro.
“Vou entrar na vida pública para ganhar dinheiro”.
Lula disse, em 1993, algo que virou folclore político:
“Há uma maioria de 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”.
O tempo passou.
E a história mostra que as coisas não mudaram muito. Ainda hoje parece ser esse o perfil de parte da classe política e de figuras públicas em posições de mando nos poderes da República.
E poucas coisas são menos republicanas do que usar a estrutura do Estado para se locupletar.
E os casos não param de surgir.
Puxamos a memória recente e eles surgem aos borbotões e frequentemente aos bilhões: Mensalão, Petrolão, Orçamento Secreto, Operação Lava Jato, Caso Master.
Não dão trégua.
Há sempre o escândalo da vez e a roubalheira da ocasião. Uma sucessão de histórias que ceifam vidas, destrói futuros e cada vez mais aumentam a miséria e a desesperança.
Porque existe uma verdade brutal nessa equação: todo dinheiro roubado tem um dono ou um destino original.
Há sempre um perdedor na história, quase sempre os mais vulneráveis. Quase nunca os mais poderosos.
Os tempos parecem cada vez mais tristes. Às vezes basta um café e cinco minutos de manchetes para sentir isso.
E por que tempos mais tristes e mais injustos? Talvez porque estejamos ficando cada vez mais tolerantes com o intolerável.
Mas o que move o homem a querer, a todo custo, o poder e o dinheiro?
Há uma palavrinha em português que traduz isso:
Ambição.
Nicolas Maquiavel explicou isso com precisão desconfortável:
“A ambição é uma paixão tão imperiosa no coração humano que, mesmo que galguemos as mais elevadas posições, nunca nos sentimos satisfeitos”.
No meu livro É da Natureza Humana (e-book disponível na Amazon.com.br), descrevo um personagem chamado João Rabelo, o doutor Jota, cujo propósito de vida é tornar-se um dos onze ministros da Suprema Corte.
Uma resposta que ele dá ao amor de sua vida talvez traduza bem a força de sua ambição:
— Minha linda menina, você sabe que isso é impossível. Eu tenho um sonho e vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para realizá-lo. Se eu deixar de lutar pelo que mais desejo, jamais me perdoarei. Seria o homem mais frustrado da face da Terra.
Peço perdão pelo que vou dizer agora — e desde já me perdoe pela minha sinceridade. A ambição que me move é maior do que o amor que sinto por você. Essa é a pura realidade.
A ambição raramente se anuncia como vilã. Quase sempre se apresenta como destino.
No fim das contas, acho que entendi o que meu amigo quis dizer. Esses temas realmente entristecem.
Mas talvez o que realmente corroa a alma não seja apenas o poder. Nem apenas o dinheiro.
Talvez seja essa ambição sem medida que transforma tudo em disputa, tudo em conquista, tudo em interesse.
E talvez seja isso que explique por que essas histórias nunca acabam.
Porque, no fundo, o verdadeiro risco nunca foi o poder. Nunca foi o dinheiro. Sempre foi o ser humano quando ele passa a acreditar que vale tudo para obtê-los. Porque simplesmente isso é da natureza humana!

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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