Ainda existem juízes em Berlim
João Régis Magalhães
Benévolo andava angustiado. E isso, nele, era quase uma contradição semântica.
Sempre acreditara em muita coisa. Na bondade humana, na força do caráter, na honestidade recompensada e, sobretudo, naquela velha lógica moral dos filmes antigos, segundo a qual o bem podia apanhar quase o enredo inteiro, mas, no fim, erguia-se cambaleando, limpava o sangue do canto da boca, encontrava forças onde elas pareciam já não existir e derrotava heroicamente o vilão.
Era assim que o mundo devia funcionar. O problema é que o mundo, ultimamente, parecia empenhado em zombar das convicções de Benévolo.
Ele passou a desligar a televisão antes do fim dos telejornais. Não suportava mais o momento em que algum comentarista surgia, em voz grave, para explicar por que determinada decisão judicial “restabelecia garantias fundamentais” ou “corrigia excessos processuais”. Nessas horas, apertava o controle remoto com força e ia até a varanda olhar o movimento da rua em silêncio, como se precisasse respirar.
A esposa dizia que ele levava política a sério demais.
— Não é política — respondia. — É caráter.
Depois, mexia o café já frio, sem beber mais nada.
E justamente quando tudo indicava que a justiça enfim iria prevalecer — quando os protagonistas dos malfeitos estavam prestes a responder por seus atos — surgia alguma manobra jurídica sofisticada, dessas que prosperam nas altas instâncias, e, de repente, tudo mudava de figura.
Pronto. O processo era anulado. Bastava um detalhe técnico: um foro inadequado, uma assinatura no lugar errado, um juiz considerado suspeito, uma escuta inválida.
E homens que, até poucos dias antes, ocupavam o noticiário policial, reapareciam sorridentes, de peito estufado, falando em perseguição, direitos e honra pessoal.
Aquilo produzia em Benévolo um desalento difícil de explicar. Às vezes, sentava-se sozinho na sala já escura, muito depois de a esposa ir dormir, apenas ouvindo o ventilador acima da cabeça.
“Faço versos como quem morre”, repetia para si, tomando emprestada a melancolia de Manuel Bandeira.
Ainda assim, havia nele alguma resistência subterrânea. Uma fé cansada, mas ainda viva. Benévolo continuava tentando acreditar que a História podia se atrasar, tropeçar, cometer injustiças provisórias; mas não permanecer eternamente ajoelhada diante do cinismo.
Convencia-se de que as instituições continuavam sólidas. Que desvios aconteciam, mas seriam corrigidos. Que o Estado de Direito possuía mecanismos de autocorreção.
Repetia aquilo quase como um mantra:
— O bem sempre há de prevalecer.
Mas havia manhãs especialmente difíceis, sobretudo depois de noites em que o noticiário revelava novas decepções sobre o país. Nesses dias, Benévolo acordava exausto, como se não tivesse pregado o olho a noite inteira. Permanecia na cama por algum tempo, olhando o teto, e deixava o celular esquecido na mesa de cabeceira, como quem evita abrir um telegrama trazendo uma notícia trágica. E, se pudesse, no restante do dia, não leria jornais, não ligaria a televisão, não responderia mensagens.
Nos piores momentos, navegava pela internet procurando algum sinal de indignação sincera. Queria sentir que não estava sozinho. Queria acreditar que ainda existiam pessoas incomodadas. Quase nunca encontrava.
Às vezes, pensava se não seria mais fácil desistir de vez. Tornar-se apenas mais um desses sujeitos irônicos que riem de tudo, zombam de qualquer virtude e tratam honestidade como ingenuidade de gente tola.
Talvez sofresse menos. Mas talvez não conseguisse se encarar no espelho.
O problema é que os personagens mudam, mas o método permanece. Os malfeitos tornaram-se tão frequentes na vida nacional que já parecem funcionar sem interrupção. Sempre surge uma nova inteligência dedicada a reinventar maneiras de se locupletar com a coisa pública. E isso o entristecia profundamente.
O golpe mais duro talvez tenha vindo nos anos da Lava-Jato.
Benévolo nunca conseguiu esconder a desilusão com os desfechos da operação. Em sua visão, o país assistira, atônito e impotente, à “descondenação” de personagens envolvidos em esquemas de corrupção — muitos deles réus confessos — que devastaram empresas, drenaram recursos públicos e fundos de pensão, além de afetarem drasticamente a vida de milhões de brasileiros.
Depois daquilo, passou muito tempo sem conseguir acreditar sinceramente na Justiça. Ou, pelo menos, na justiça suprema.
Talvez por isso, quando surgiram as primeiras notícias do chamado Caso Master, algo voltou a se mover dentro dele.
Desde então, acompanhava o noticiário com atenção quase juvenil. Lia e assistia compulsivamente a entrevistas, reportagens e análises, tentando compreender cada detalhe do escândalo. Havia muito tempo não demonstrava tamanho interesse pelos acontecimentos da conjuntura.
Já escolhera seus heróis e seus vilões.
Ressalve-se, entretanto, que, desta vez, existia algo diferente dentro dele. Não exatamente euforia. Muito menos ingenuidade. Era uma esperança cautelosa, dessas que chegam devagar, como quem pede licença depois de longa ausência — afinal, gato escaldado tem medo de água fria.
Benévolo voltou a acreditar que talvez existam limites que não possam ser eternamente ultrapassados. Que a mentira pode prosperar durante algum tempo, ocupar tribunas, vestir ternos caros e discursar sobre virtudes republicanas. Mas não para sempre. Porque há momentos em que a realidade cobra a conta. Os fatos simplesmente prevalecem, e pronto.
No fundo, Benévolo quer apenas continuar acreditando que o país ainda pode dar certo. Que as instituições podem reencontrar dignidade. Que o bem — mesmo combalido, esmorecido e achincalhado — ainda seja capaz de se levantar no último ato.
Como nos velhos filmes a que ele nunca deixou de assistir. E nos quais, apesar de tudo, ainda existiam juízes em Berlim.
——————————————————————————————————–
João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
Facebook: @regismagalhaes
Instagran: @joao_regis_magalhaes