O TRISTE CAMINHO DOS MORTOS

Por Nestor de Oliveira – Jornalista

A morte, o despertar do sonho da vida, “vem de longe, do fundo dos céus. Vem para os meus olhos. Virá para os teus”, disse Vinicius de Moraes. Destino inevitável de todos, tem também um dos caminhos mais inóspitos para se chegar à última morada – o cemitério do Parque da Colina. Quem segue pela Rua Candido de Souza primeiro encontra os tambores de guerra do Ceresp/Gameleira, onde filhos choram e mães não vêm. Onde também a morte habita e acontece, um presídio para 800 presos e lá sobrevivem mais de 1.300 condenados ou aprisionados, com alto índice de assassinatos entre eles. Ali começa um caminho de assustar o mais experiente dos mortais, como se fosse um aviso aos transeuntes, para que se acautelem em vida, porque a morte pode ter uma estrada intransitável, abandonada, desastrada.

O morto, no seu carro fúnebre, é poupado da triste visão que o caminho reserva, primeiro com a fila de familiares, sob sol ou chuva, para visitar seus prisioneiros, como se houvesse maior dor humana que a perda da honra e dignidade. Depois vem a sujeira da rua, lixo e abandono no percurso do último trajeto na terra, rumo à eternidade. Melhor pra ele, morto, que nada vê, nada ouve, nada sente. O seu séquito, parentes e amigos, são obrigados a passarem pelas ruas do abandono, esburacadas, rejeitos de obras no seu leito, móveis descartados, um bota fora da imundice, inaceitável, lixo acumulado ao longo do caminho, ratos e gambás soltos a correrem, oficinas de carros e motos a céu aberto a impedir o trânsito normal, um lugar de desleixo e triste realidade.

Tive a experiência recente, no início da semana, de comparecer ao velório de uma amiga, pessoa querida, arquiteta em vida, carismática, merecedora das flores que recebeu na despedida. Fiquei a imaginar o seu último caminho para o descanso eterno. Seria justo desejar uma alameda de árvores, jardins e flores, gramados tranquilos que imitassem na terra uma imagem do eterno repouso ou paraíso. Com certeza seus projetos profissionais sempre reservaram espaço para a beleza, as plantas, árvores, flores, o aconchego e o silencio. No entanto, seu último caminho é de estarrecer e comprovar o atual abandono pela administração municipal. É na verdade uma projeção da cidade como um todo, que no último ano, sob a pressão das urgências, gestão do novo prefeito, tem assistido ao aumento das demandas, a exigir recursos e ações, para superar tantos problemas. Sujeira, mato crescendo, buracos nas ruas, deslizamentos, lixo, moradores de rua, mau cheiro, e um sem fim do caos urbano passou a ser o calvário do belorizontino. Muito bem faria o Prefeito Álvaro Damião, com seu programa de Prefeito Presente, ir ao local, acompanhado da Sudecap e Limpeza Urbana, tomar providências imediatas para a limpeza deste último caminho para os mortos e obrigatório para familiares e amigos. Seria uma ação de caridade e boa gestão, permitindo que a dignidade e solidariedade aos mortos não custasse tanto aos vivos. Sei das inúmeras urgências que a cidade exige, como o trânsito congestionado, os projetos de melhoria da saúde e educação, mas nunca podemos deixar de homenagear e honrar os que se foram.

Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor

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