Fui à Bienal do Livro na Bahia — e, na volta, Brasília nunca foi tão distante.

João Régis Magalhães

Arrumei um motivo para ir à Bahia. Na verdade, um bom motivo nunca vai faltar — porque a Bahia nunca saiu de mim. Mas, desta vez, havia uma justificativa oficial: a Bienal do Livro Bahia 2026, em Salvador, onde fui divulgar o meu livro É da Natureza Humana.

Esse foi o motivo. As razões, no entanto, eram outras.

O que me levou a atravessar mais de mil quilômetros desde Brasília não foi apenas um compromisso literário, importante, é verdade, mas algo mais persistente: memórias que se recusam a apagar e amizades que resistem ao tempo.

Ir à Bienal, no fundo, era isso: a oportunidade de estar perto de velhos e bons amigos. E como é bom.

E lá encontrei vários. Alguns que eu não via há anos.

— Oi, Isabel, estou feliz de te encontrar depois de tanto tempo. Poxa, que alegria!
E ela me respondeu, com a naturalidade dos afetos que não enferrujam:
— Adorei estar com você. A amizade resiste à distância, à pouca frequência do contato… amigo, quando se encontra, é como se tivesse se visto ontem.

Era exatamente isso.

Há algo de misterioso nesses reencontros. Quase mágico. Como se o tempo vaticinasse: isso aqui não envelhece.

A alegria de celebrar amizades — ainda mais a centenas de quilômetros da rotina — é difícil de traduzir, mas se aproxima do sublime.

O dia 16 de abril foi uma dessas noites que escapam à explicação. Autografei livros, sim — mas, mais que isso, reafirmei laços. Dediquei palavras a rostos conhecidos e queridos — pessoas que, de algum modo, ajudaram a moldar quem sou.

E foi ali, atravessado por nostalgia e afeto, que nasceu em mim uma certeza quase teimosa: vou escrever outro livro. E vou lançá-lo na Bienal de 2028.

Porque quero continuar tendo motivos para voltar.

A minha ligação com a Bahia é antiga. A primeira vez que cheguei à “Boa Terra” já foi para morar. Janeiro de 1980. Eu realizava um sonho que começou ainda menino, lendo Jorge Amado. Foi ele quem me apresentou a uma Bahia intensa, morena, misteriosa, viva, quase inevitável — uma terra que eu desejava conhecer e viver.

Quando surgiu a oportunidade, não pensei duas vezes. Troquei de universidade, de planos e de rota — e me mudei de mala e cuia.

Foi amor à primeira vista.

A Salvador do começo dos anos 80 era pacata, quase provinciana, mas carregava no ar uma promessa. Havia algo em gestação, silencioso, quase subterrâneo, que só mais tarde se revelaria com força.

Ainda não havia explodido a “marca Bahia” no cenário nacional — quiçá no internacional.

Salvador era, sobretudo, uma cidade nordestina, com sotaque e alma africanos, é verdade, e, justamente por isso, genuína, singular, inteira, irreplicável.

Foi nesse cenário que vivi alguns dos anos mais dourados de minha juventude. Tive a sorte de ser soteropolitano por quase meia década — ou, pelo menos, tentar ser. Ali vivi como se baiano fosse.

E, como definiu Nizan Guanaes: “O baiano não nasce, estreia.”

A minha, de algum modo, começou ali.

Estudei. Trabalhei. Namorei. Fiz farras memoráveis — algumas, inclusive, que minha memória prudentemente decidiu editar. Aprendi muito. Talvez o essencial.

Conheci o estado quase todo. Cruzei a Bahia de ponta a ponta — de norte a sul, de leste a oeste. Como um desbravador de terno e pasta, abrindo agências de um grande banco federal. Ia antes, organizava tudo; voltava depois para participar da inauguração.

O ano era 1982 — época em que não se votava para presidente, mas se elegiam governadores, senadores e deputados. As inaugurações tinham mais discurso do que fita para cortar. Por isso, cruzei o estado várias vezes — mais pela política do que pela geografia.

Foi ali que comecei a entender o Brasil de verdade: as diferenças, as desigualdades, as muitas Bahias dentro de uma só.

Na Bahia de São Salvador, aprendi sobre gente, fé, comida e música.

Como canta Caetano Veloso: “Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem…” — e faz mesmo.

Faz, inclusive, a gente querer voltar.

Na semana passada, cedi a esse impulso. Andei pelo Pelourinho. Comi uma moqueca de siri catado no Axego. Visitei a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco e seu deslumbrante conjunto de azulejaria portuguesa. Tomei um sorvete de cajá na Cubana. Desci o Elevador Lacerda. Estive no Mercado Modelo, onde comprei umas bonecas baianas. Fui à Basílica do Senhor do Bonfim agradecer as graças recebidas e comprar fitinhas coloridas.

Passei uma tarde em Itapoã — território do Caymmi — e não perdi a viagem: almocei, com o Romualdo, no Mistura, uma moqueca de badejo e camarão preparada pelo chef Joãozinho — uma delícia.

E, entre um lugar e outro, a sensação constante de que eu nunca tinha ido embora.

No Rio Vermelho, onde me hospedei, encarei o inesquecível acarajé da Cira — com a coragem que só a felicidade proporciona — e ainda tive fôlego para me deliciar com o imperdível arroz de polvo da Confraria do França — uma daquelas iguarias que a gente come de joelhos e em louvação.

E, como se não bastasse, fui ao show da Ritinha Tavares, no Fratello, na Graça — a voz mais doce e suave da Bahia, sem direito a contestação.

Em meio a tudo isso, reencontrei Almir, Denise, Lago, Marciana, Isabel, Martinha, Mauro, Verinha, Heliton Castelo Branco, Bia, Rita e o velho Mago — meu irmão da Bahia.

Resultado: engordei pelo menos um quilinho. Mas ganhei de volta algo que nenhuma balança mede — e, convenhamos, compensa qualquer esforço futuro.

Tudo parecia perfeito.

Perfeito demais — e isso nunca é um bom sinal.

Porque, quando tudo está perfeito assim, a vida — só para não deixar a gente se achar — costuma preparar alguma coisa.

E preparou.

Embarquei tranquilo para Brasília, com conexão em Vitória. Desembarquei com tempo. Bastante tempo. Tempo suficiente para comer, fazer umas comprinhas e até refletir sobre a vida…

Pois bem. Deu tempo de tudo isso.

Menos de pegar o voo.

Sim. Eu consegui perder a conexão mesmo estando dentro do salão de embarque do aeroporto. Dá para acreditar?

Não é algo trivial. Exige foco, disciplina e uma autoconfiança perigosamente equivocada.

Quando me dei conta, veio o veredito:
— Senhor, as portas já foram fechadas.

Naquele instante, considerei argumentar que eu também estava prestes a fechar — emocional e logisticamente —, mas me pareceu que não ajudaria.

Resultado: malas na mão, dignidade levemente avariada e aquela caminhada típica de quem acaba de ser surpreendido pela própria incompetência operacional.

Não havia voo direto. Restava improvisar.

Escolhi o Galeão. Porque, aparentemente, sofrer pouco já não era uma alternativa disponível.

A volta para Brasília nunca foi tão distante.

Foram mais de doze horas entre voos, conexões e reflexões profundas — especialmente sobre o perigo da frase “dá tempo”.

Cheguei em casa de madrugada.

Mais cansado. Mais pesado — não pelas malas, porque vários exemplares do livro ficaram em Salvador, nas mãos de novos leitores.

Porque, no fundo, não foi a viagem que ficou mais longa.

Foi outra distância.

Brasília continuava no mesmo lugar.

Mas eu já não era o mesmo de antes.

E talvez seja isso que a Bahia faz com a gente: quando a gente parte, ela não se despede — se instala

——————————————————————————————————–

João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

Facebook: @regismagalhaes

Instagran: @joao_regis_magalhaes

Related post

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *