O cérebro de mãe (versão bugada)
Existe uma coisa que ninguém menciona quando fala sobre maternidade.
Não é a falta de sono.
Não são as fraldas.
Nem os brinquedos espalhados pela casa.
É o bug.
Sim. O bug que acontece no cérebro da mãe.
Porque depois que os filhos chegam, alguma atualização misteriosa é instalada e, desde então, o sistema nunca mais funciona exatamente da mesma forma.
Por exemplo: eu posso esquecer onde coloquei a chave do carro cinco minutos atrás.
Posso esquecer a senha do e-mail.
Posso esquecer o motivo pelo qual entrei em um cômodo.
Mas experimente me perguntar qual é o desenho favorito da minha filha.
Ou qual personagem ela amava aos quatro anos.
Ou qual foi a única fruta que ela aceitou comer durante três semanas em 2019.
Essa informação está armazenada em algum servidor secreto da maternidade e pode ser acessada imediatamente.
Outro sintoma clássico é conversar sozinha.
Eu não sei exatamente quando começou.
Só sei que hoje mantenho diálogos completos comigo mesma.
— Onde está meu celular?
— Na sua mão.
— Ah, verdade.
— Preciso colocar roupa para lavar.
— Já colocou.
— Então por que a máquina está desligada?
Às vezes percebo que estou discutindo comigo mesma há vários minutos.
E o pior é que nem sempre eu ganho a discussão.
Mas o estágio mais avançado do cérebro materno bugado é a capacidade de criar teorias.
Muitas teorias.
Teorias que surgem do nada e crescem em velocidade impressionante.
Exemplo:
A casa fica silenciosa.
Silêncio absoluto.
E imediatamente meu cérebro inicia uma investigação digna de filme policial.
“Por que está tão quieto?”
“Será que estão dormindo?”
“Será que estão brigando?”
“Será que encontraram tinta?”
“Será que existe cola envolvida?”
“Será que vou precisar chamar um pintor?”
Tudo isso acontece em aproximadamente oito segundos.
Quando chego ao local do suposto desastre…
As crianças estão apenas assistindo televisão.
Em paz.
Como seres humanos normais.
Enquanto isso, eu já tinha imaginado um prejuízo emocional e financeiro considerável.
O cérebro de mãe é assim.
Ele esquece datas, compromissos e, em alguns dias, até o próprio nome.
Mas nunca esquece quem gosta da colher azul, quem odeia cebola, quem dorme sem meia e quem só aceita o copo rosa.
É um sistema operacional estranho.
Cheio de falhas.
Cheio de abas abertas.
Cheio de pensamentos simultâneos.
Mas funciona.
Do jeito dele.
E talvez seja exatamente por isso que a maternidade seja tão divertida.
Porque, entre um esquecimento e outro, a gente percebe que o cérebro pode até estar bugado…
Mas o amor continua funcionando perfeitamente.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae