Lolô!

Após uma dezena de rebentos, já aos 40 anos, a Dona Terezinha e o Sô Ananias ainda tiveram ânimo e muita alegria em ampliar a família. Mal sabiam eles que o fechamento do ciclo seria com chave de ouro cravejada de diamantes.

Mais uma gravidez naquela escarpada montanha que abrigava a Vila Tanque. Um bairro operário, construído para receber os empregados da, então, Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Uma coragem ímpar, pois seu penúltimo filho já dera muito trabalho e preocupação há poucos anos, quando, aos seis meses, foi acometido pela poliomielite, comum naqueles tempos.

Inaugurada em 1940, na era Vargas, ficou marcada na história como a primeira vila operária das Américas. A cidade, João Monlevade, é um importante marco na industrialização do país. E o bairro abrigava diversos profissionais, cujos filhos, esperava-se, aprenderiam suas profissões técnicas no SENAI, instalado na parte baixa do bairro.

Daquela gestação, em 1976, sem ultrassom e as facilidades atuais, vieram, numa quinta-feira, pelas hábeis mãos da experiente parteira – com currículo de fazer inveja a muitos obstetras renomados – duas lindas meninas. Gêmeas, sim, mas não univitelinas. Assim, fisicamente não se pareciam tanto. A primeira chegou quatro minutos antes da segunda. E foi um acontecimento memorável.

Não havia carência, porém também nenhum luxo. Sem TV, sem geladeira, nem radiola, nem máquina fotográfica. O Sô Ananias era funcionário público, responsável pelo antigo armazém do SAPS, que depois se transformou em Cobal. Eram muitas bocas para alimentar e muitos corpos para vestir e calçar. Talvez por isso, a ação de grande dispêndio, a título de comemoração pelo nascimento das filhas gêmeas, aconteceu na volta do trabalho: o pai pagou a passagem no ônibus de uns poucos que ainda não haviam passado a roleta. E o fez com emoção enquanto era felicitado por aqueles operários retornando da labuta diária.

Os nomes sugeridos pela avó paterna foram Neuza e Creuza. No entanto, como havia muitas com esse nome na região, foram gentilmente descartados.

A opção era Maria, em homenagem à mãe de Cristo. Mas eram duas. Como resolver? Os pais, muito religiosos, cristãos, optaram pela luz da estrela de Belém, a Estrela-guia, para a primeira: Maria Luiza. A segunda, uma variação do nome daquele indicado pela luz divina: Maria Cristina.

O pai, aos 98, foi ter com o Criador, em 2012. A mãe, aos 92, partiu ao seu encontro em 2018. Como não sentir a imensa falta que cada um deles faz?

Receberam todo o carinho e atenção da Maria Luiza em seus últimos anos. O mesmo carinho e cuidados dispensados a muitos dos sobrinhos dela, netos deles, que vieram nesse processo natural de renovação.

Atenciosa e dedicada, a menina alegre, disposta e com samba no pé, se fez mulher, esposa e mãe. Aos poucos todas as demandas que o cuidado impõe foram desbotando o apelido carinhoso da infância. As pessoas foram se acostumando a que fosse apenas Luiza. Menos para a Dona Terezinha que manteve sempre a delicadeza do apelido habituado há anos.

Entre quinta de 1966 e a sexta de 2026, passou uma vida inteira de dignidade e de puro brilho. No dia 25 de março de 2026, a Dona Terezinha e o Sô Ananias, provavelmente, pagaram algumas passagens de luz pela alegria de receber, no céu, a sua querida Lolô.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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