O dia em que o Senado só não baixou o preço do pãozinho
Por João Régis Magalhães
— Acachapante! Acachapante!
Há palavras que, ditas em voz alta e com convicção, parecem anunciar o Apocalipse. “Acachapante” é uma delas.
Quem a gritou entrou na sala com a aflição de um mensageiro medieval trazendo notícias da peste.
— O que houve?
— Uma derrota acachapante!
Sentado à mesa, o interlocutor ergueu os olhos lentamente.
— Foi o meu time?
— Não.
— Ufa!
Respirou aliviado.
— Então quem perdeu desta vez?
O mensageiro pareceu ofendido com a hierarquia de prioridades do interlocutor. Respirou fundo, dramaticamente, e sentou-se na cadeira à frente:
— O indicado ao Supremo foi rejeitado pelo Senado!
Houve uma pausa daquelas que parecem esperar um complemento salvador. Um detalhe capaz de conectar a tragédia anunciada à vida humana.
Não veio.
— E… isso significa o quê? — perguntou o interlocutor.
O mensageiro o olhou com a mesma indignação reservada aos que cortam espaguete com faca.
— Como assim “o que significa”? O presidente Lula indicou Jorge Messias para o Supremo e o Senado rejeitou! Quarenta e dois votos contra! A maior derrota política de um governo em décadas! Uma verdadeira hecatombe!
— Ainda não entendi se é de comer ou de passar no pão.
Num súbito fervor professoral, o mensageiro avançou:
— A última vez que o Senado rejeitou um indicado ao STF foi ainda no século XIX. O que aconteceu é histórico, é significativo. É a derrocada de um governo!
— Certo — respondeu o interlocutor. — Mas o que muda na minha vida?
Silêncio novamente.
Um silêncio constrangedor, desses em que a resposta honesta talvez fosse “rigorosamente nada”, mas ninguém teria coragem de admitir.
O mensageiro hesitou. Olhou para o teto. Coçou o queixo. Consultou mentalmente todos os editoriais que lera naquela manhã.
— Bem… um governo enfraquecido perde força no Congresso. O país entra naquela fase em que não se sabe quem governa de fato e a pauta passa a ser a próxima eleição. Os americanos usam a expressão “lame duck” para designar o governante que entra nesse tipo de agonia institucional, quando até o cafezinho parece chegar frio à mesa.
O interlocutor interrompeu:
— O preço da carne baixa?
— Não.
— A gasolina?
— Não.
— O trânsito melhora?
— Não.
— A fila do SUS diminui?
— Também não.
O interlocutor assentiu lentamente, como quem confirma o resultado de uma conta difícil.
Mas, diferente do que o mensageiro imaginava, não havia ali alienação pura. Havia fadiga. O fastio de quem já assistira escândalos demais transformados em entretenimento político.
— Então você está tendo um colapso nervoso por um evento que não paga meus boletos, não melhora minha vida e não encurta nem a fila do INSS?
O mensageiro cruzou os braços.
— Você não entende. Ou não quer entender. Isso é democracia. Isso é governabilidade. Esse tipo de coisa não pode ser simplesmente ignorado.
O interlocutor levantou-se e caminhou até a janela.
— E talvez seja por isso que qualquer entrevero vira final de Copa do Mundo. Nesse caso, ninguém sabe se o sujeito rejeitado era um grande jurista ou apenas alguém simpático no churrasco do Palácio da Alvorada. Até agora, vi pouca gente discutindo a questão por esse lado.
O mensageiro ajeitou a postura.
Pela primeira vez desde o início da conversa, pareceu menos interessado no tamanho da derrota e mais no que ela revelava.
A discussão quase não tratara da qualidade jurídica do indicado — se ele era realmente o melhor nome para compor a mais alta corte do país. Não se sabia ao certo o que o levara à indicação. Currículo? Experiência? Notório saber? Reputação ilibada? Ou apenas a estrita confiança do primeiro mandatário?
Falava-se mais da derrota do governo, do impacto eleitoral e da humilhação política. O mérito parecia mero detalhe.
E talvez estivesse aí parte do problema.
O Brasil foi se acostumando à ideia de que certas cadeiras da República podem ser preenchidas menos pela excelência e mais pela intimidade com o poder.
Como se o Supremo fosse uma mistura de corte constitucional com roda de compadres.
A confiança pessoal virou virtude republicana.
E o país foi aceitando isso com uma resignação bovina — sem reagir, sem contestar.
O interlocutor então prosseguiu:
— Talvez as pessoas estejam alienadas mesmo. Mas talvez estejam cansadas também. O cidadão acorda antes das seis da manhã, pega ônibus lotado, faz conta para comprar o básico… Aí liga a televisão e encontra comentaristas em estado de êxtase porque um amigo do presidente perdeu uma cadeira em Brasília.
O mensageiro abriu a boca para responder, mas hesitou.
Porque sobreviver consome quase toda a energia mental do brasileiro médio.
Para quem passa o mês negociando boletos, certas discussões parecem distantes demais de quem ainda precisa garantir o jantar.
Ainda assim, havia um risco naquela indiferença.
Democracias raramente acabam de forma estrondosa. Costumam se desgastar devagar, cercadas de propaganda, discursos inflados e inimigos imaginários, enquanto o povo tenta fechar as contas do mês.
O mensageiro então falou num tom menos inflamado:
— O problema é que a gente vai se acostumando. Aceita-se uma indicação pessoal porque “todo presidente faz isso”. O notório saber vira detalhe porque “o importante é a confiança”.
Fez uma breve pausa.
— Quando se percebe, instituições de Estado já parecem extensões sofisticadas das disputas de poder.
O interlocutor permaneceu em silêncio.
— E o mais curioso — prosseguiu o mensageiro — é que quase todo poder no Brasil sofre algum tipo de fiscalização. Menos justamente aquele encarregado de decidir o que é legal, constitucional e definitivo.
Outra pausa.
— Aos poucos, o país foi se acostumando à ideia de que onze pessoas podem decidir praticamente tudo sobre a vida nacional — sem controle, sem limites.
O interlocutor ficou calado pela primeira vez.
Talvez porque a conversa finalmente tivesse saído do noticiário e tocado algo real, embora invisível.
O mensageiro suspirou:
— Talvez você tenha razão. A política exagera a própria importância. Mas o país também erra quando só percebe a importância da política tarde demais.
O interlocutor coçou a cabeça e sorriu com melancolia:
— Acho que o problema do Brasil é que metade do país transforma tudo em fim do mundo… e a outra metade só percebe o fim do mundo quando começa a faltar pãozinho na padaria.
E os dois se calaram.
Não um silêncio de derrota. Nem de vitória.
Mas aquele silêncio pesado de quem percebe que vive num país onde a população não entende o Supremo, o Supremo raramente entende a população e, entre um e outro, a democracia envelhece devagar — numa fila qualquer, esperando atendimento e o pãozinho quente das seis da tarde.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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