Vem por aqui

Alguns ditados populares me encantam pela sabedoria que encerram. Normalmente são poucas palavras, mas com um sentido vasto o suficiente para demonstrar amplo conhecimento, adquirido das experiências pessoais ou
da constância de resultados para determinadas atitudes. E quando se pensa no quanto esse saber pode nos livrar de situações constrangedoras ou de pessoas nefastas, podemos entender o valor do aprendizado.

Cito, como exemplo, que, certa vez, há muitos anos, minha mãe observou que um senhor se aproximava de algumas crianças com intenções que ela supôs desastrosas. Era um sujeito razoavelmente apresentável no vestir e no falar,
com sorriso fácil e gestos comedidos. Com esse olhar de mãe zelosa e atenta, restringiu-nos, aos filhos pequenos, a saída de casa enquanto aquele homem estivesse na esquina da nossa estreita rua com a também reduzida avenida do Contorno. Uma de nossas vizinhas estranhou o que considerou “excesso de zelo”, pois o estranho visitante parecia gentil e muito educado no trato com os petizes. A dona Therezinha, do alto de sua sabedoria, respondeu: “Ninguém pega galinha dizendo: xô!” Em muitas das casas de nossa rua, à época, havia pequenos galinheiros, portanto, o termo “xô” era bem conhecido por seramplamente empregado para espantar essas aves domésticas.

Muitas pessoas hoje, jovens e adultos, são facilmente ludibriadas pelas promessas vãs de que fruirão de extensos bens e direitos a que nunca fizeram jus, pelos quais nunca se empenharam. E nem se preocupam em identificar a
fonte desses recursos. Especialmente quando é o governo quem os coopta ao criar um cenário de fartura e conforto em troca “apenas” do seu voto e o daqueles a quem puderem agregar à proposta, por mais fantasiosa que seja.

Em especial, as Pessoas com Deficiência se tornam alvos prioritários nas sórdidas campanhas de “benevolências” ilusórias. Importa sobremaneira observar que os auxílios são muito bem-vindos pelo apoio e suporte contra as
condições inelutáveis de adversidades. No entanto, o que mais interessa, ou deveria interessar, são programas verdadeiramente voltados para a emancipação; que permitiriam alguma autonomia para, em última instância,
prover a autoestima, tão difícil neste recorte social.

Em esteira desses adágios, uma reflexão poética e poderosa me vem, com o genial texto do português José Régio, no célebre Cântico Negro: “Vem por aqui / dizem-me alguns, com olhos doces.” … “Se, ao que busco saber, nenhum de vós respondes, porque me repetis: ‘Vem por aqui?’ ”.

Quem tem as rédeas de seu destino? A quem prestar contas de seus desejos mais profundos, senão a você mesmo? Por que então entregar seu futuro em mãos de quem sequer imagina seus sonhos e que nem dispenderia qualquer
esforço para dar forma e vida aos seus projetos?

Em 1989, o grupo Titãs lançava a música “O Pulso”, na qual se percebia uma tentativa de demonstrar que a vida sem propósito serve apenas àqueles que vivem da miséria alheia, mantendo a quantos possam, na condição de eterno
dependente. “E o pulso ainda pulsa!”. Dessa forma, manipulam sua utopia de um dia alcançar suficiência.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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