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Julgamento

Parte 1 – Certeza

João Régis Magalhães

Ela já enfrentara muitas decepções. Nenhuma, porém, a prepara para aquela. Se viesse de qualquer outra pessoa, doeria menos. Mas não. Justamente dela, de quem sempre esperara o melhor.

Não conseguia aceitar. A menina que aprendera a amar como uma irmã caçula era agora o motivo da maior ferida que carregava.

Tudo acontecera de forma sorrateira, quase invisível. Quando percebeu, o estrago já estava feito. A dor não vinha apenas do golpe. Vinha da mão que o desferira.

Não. Aquilo só podia estar mal contado.

Logo Creusa. A mesma Creusa por quem ela, sem pensar duas vezes, doaria um dos rins, se isso lhe salvasse a vida. A mesma jovem que tantas vezes encontrara nela um colo, um conselho e uma porta aberta. Era impossível acreditar que justamente ela pudesse retribuir tudo daquela maneira.

Emília passara dos quarenta anos. Conhecera Creusa ainda de colo. A menina era filha de Ludmila, uma vizinha, mãe solteira, que criava a filha sozinha e, para conseguir fazer alguns trabalhos esporádicos, precisava contar com a ajuda da mãe de Emília.

Quando o câncer levou Ludmila cedo demais, os pais de Emília nem cogitaram outro destino para a órfã. Criaram-na como filha. Emília, aos poucos, a teve como irmã. O afeto cresceu naturalmente, sem que nenhuma das duas percebesse quando deixara de ser apenas carinho para se transformar em amor fraternal.

Anos depois, já casada com Fábio, Emília insistiu para que Creusa fosse morar com eles. O casamento já não tinha a mesma paixão dos primeiros tempos. Fábio passava o dia no trabalho e chegava em casa quase sempre cansado. Ela se sentia só. Aquele lar parecia grande demais para apenas os dois. A chegada de Creusa devolveu movimento, alegria e uma leveza que Emília havia muito não sentia.

As duas cantavam e riam enquanto cozinhavam, arrumavam a casa ou simplesmente tomavam café na varanda. Creusa preenchia os dias de Emília. Sua alegria era contagiante. Pela primeira vez em muito tempo, ela voltou a sentir prazer em estar em casa.

Os anos passaram quase sem que percebesse. A menina transformou-se em uma mulher bonita, espontânea e cheia de vida. Fábio gostava da companhia dela. De uns tempos para cá, passou a chegar mais cedo do trabalho e já não parecia tão cansado. Os dois conversavam sobre filmes, futebol, política, música. Enquanto isso, Emília se distraía diante das novelas turcas que tanto adorava. De vez em quando levantava os olhos da televisão e sorria ao ouvir as gargalhadas vindas da varanda. Achava bonito. Via naquela convivência apenas o carinho de um irmão mais velho.

Naquela manhã, porém, tudo parecia diferente.

Acordou mais tarde do que de costume. Estava sozinha na cama. Imaginou que Fábio tivesse saído mais cedo para o trabalho. Estranhou o silêncio. Creusa já costumava estar de pé àquela hora, cantarolando alguma música ou reclamando que o café esfriava depressa.

Chamou por ela. Nenhuma resposta.

Sorriu sozinha.

— Deve ter ido caminhar.

Preparou o café. Colocou as três xícaras sobre a mesa, como fazia todas as manhãs, e esperou alguns minutos. Nada.

Foi até o quarto de Creusa. A cama estava impecavelmente arrumada. O aroma de um perfume suave ainda resistia no ar, como se a dona do quarto tivesse acabado de sair.

Esperou que ela voltasse para tomarem café juntas. Ela não chegou. Estranhou. A caminhada não costumava demorar tanto. Desistiu de esperar e tomou o seu café sozinha. 

Depois de umas duas horas. Pegou o celular. Ligou. A chamada caiu direto na caixa postal. Tentou novamente. Nada. Mais uma vez.

— Atende Creusa…pelo amor de Deus!

A preocupação começou a ocupar o lugar da estranheza. Pensou em acidente. Pensou em assalto. Tentou se acalmar imaginando que simplesmente o telefone estivesse descarregado. Afinal, isso acontecia.

Sem ter ideia do como agir, respirou fundo e decidiu esperar o Fábio chegar. Certamente ele saberia o que fazer.

As horas se arrastaram. No fim da tarde, cada carro que diminuía a velocidade diante da casa fazia Emília levantar-se da poltrona e correr até a janela. Nenhum era o dele. Esquentou o jantar. O jantar esfriou. Esquentou novamente. Depois desligou o fogo. Olhou para o relógio inúmeras vezes. Ligou para o marido. Esperou até a chamada cair. Tentou outra vez. E mais outra. Nada.

— Fábio… me liga. Seja lá o que estiver acontecendo…me dê notícias, por favor!

Chegou a ligar para a polícia. Desistiu. Lembrou-se de já ter ouvido que era preciso esperar vinte e quatro horas. Nunca soube se aquilo era verdade, mas agarrou-se àquela ideia como quem procura uma desculpa para não enfrentar o pior.

Quando a noite tomou conta da rua e a casa continuava vazia, a preocupação começou a se misturar com um desconforto difícil de explicar.

Sem querer, passou a lembrar de pequenas cenas que, até então, lhe pareciam absolutamente banais. As conversas demoradas na varanda. As risadas vindas da cozinha. O entusiasmo de Fábio sempre que Creusa sugeria um programa para o fim de semana. Recordações soltas, que jamais haviam despertado qualquer desconfiança, agora pareciam pedir uma nova interpretação.

Emília balançou a cabeça, como quem tenta expulsar um pensamento inconveniente.

— Não… Estou ficando maluca. O Fábio nunca faria isso. E a Creusa…muito menos.

Mas certas ideias, depois que encontram uma fresta, entram sem pedir licença. E, uma vez instaladas, fazem de tudo para convencer a gente de que sempre estiveram ali.

Emília não dormiu naquela noite. Virava de um lado para o outro, incapaz de encontrar uma posição que lhe trouxesse algum descanso. De uma hora para outra estava só. Sentia-se abandonada justamente pelas duas pessoas em quem mais confiava. Tentava convencer-se de que ainda não havia prova de coisa alguma. Creusa podia estar em qualquer lugar. Fábio também. Bastava que um dos dois atendesse o telefone e toda aquela angústia talvez se desfizesse como um pesadelo ao amanhecer. Mas nenhum deles dava qualquer sinal de vida, e o silêncio, quanto mais se prolongava, mais parecia confirmar aquilo que ela se recusava a admitir.

—  Creusa, você não faria isso comigo… faria?

As perguntas voltavam sem cessar. Por que Creusa sairá de casa sem avisar? Por que sairia sem deixar um bilhete, sem uma explicação, sem um simples abraço de despedida? E por que, justamente naquele dia, Fábio também desaparecera e não atendia às ligações? As respostas não vinham. Em compensação, as lembranças surgiam uma atrás da outra, como se alguém tivesse resolvido revirar todas as gavetas da sua memória.

As conversas demoradas e as risadas dos dois, a repentina disposição renovada de Fábio desde que Creusa ficou mocinha, tudo aquilo que até a véspera lhe parecera apenas a convivência carinhosa entre um homem maduro e uma irmã mais nova agora adquiria outro significado. Era como se as mesmas cenas estivessem sendo iluminadas por uma luz diferente. O que antes transmitia ternura agora parecia esconder cumplicidade. As cenas eram as mesmas. Quem mudara fora ela. Era a dor que agora lhes atribuía outro significado.

Levantou-se várias vezes durante a madrugada. Caminhou pela casa escura, passou pela varanda, entrou na cozinha, voltou ao quarto. Sentia-se uma estranha dentro da própria casa. Deteve-se por alguns instantes diante das duas cadeiras onde tantas vezes vira Fábio e Creusa conversando animadamente. Recordou-se das vezes que sorrira ao ouvir as risadas dos dois, feliz por perceber que as duas pessoas que mais amava se davam tão bem. Naquele momento, porém, uma pergunta atravessou seu pensamento como uma lâmina: teria sido a única pessoa incapaz de perceber o que estava acontecendo bem diante dos seus olhos?

— Meu Deus… será que fui a última a saber?

Tentou afastar aquela ideia. Disse a si mesma, em voz baixa, que estava enlouquecendo, que não podia condenar ninguém sem uma única prova. Ainda assim, a memória parecia empenhada em construir uma acusação. Cada lembrança que tinha dos dois juntos era uma peça de um quebra-cabeça que se encaixava com uma perfeição assustadora. Pela primeira vez, Emília teve a impressão de que talvez não estivesse descobrindo uma traição, mas apenas chegando tarde demais à compreensão de algo que todos, menos ela, já conheciam.

Foi naquela madrugada que as perguntas deixaram de importar. Emília já sabia quem culpar.

Quando os primeiros raios de sol invadiram timidamente o quarto, desistiu de continuar a tentar dormir. Levantou-se com a cabeça latejando e o corpo dolorido, como se tivesse atravessado uma longa enfermidade durante a noite. No espelho do banheiro encontrou uma mulher abatida, envelhecida e quase irreconhecível. Lavou o rosto várias vezes com água fria, mas nem a água conseguiu apagar a expressão de desalento estampada em seus olhos.

— Meu Deus… onde foi que eu errei? O que foi que eu fiz para merecer isso?

Foi até a cozinha preparar café. Quase sem pensar, retirou três xícaras do armário e as colocou sobre a mesa, como fazia havia anos. Só percebeu o que acabara de fazer quando despejou o café na primeira delas. Ficou alguns segundos olhando para as outras duas. Sentiu um nó na garganta. As três xícaras permaneceram sobre a mesa. Pela primeira vez, Emília não soube para quem servir o café.

Àquela altura, já não existia espaço para dúvidas.

Chorou até que as lágrimas se esgotassem. Depois permaneceu longo tempo imóvel, olhando para o vazio. Aos poucos percebeu que a tristeza começava a mudar de natureza. O sentimento de abandono dava lugar à humilhação; a humilhação alimentava uma revolta silenciosa; e essa revolta, quase sem que percebesse, transformava-se numa determinação fria, daquelas que não costumam nascer do impulso, mas da dor.

Naquela manhã, Emília já não buscava apenas respostas. Precisava encontrar Fábio e Creusa. Não sabia exatamente o que lhes diria quando os encontrasse. Também não sabia se ainda desejava ouvir qualquer explicação. Tinha apenas uma certeza: depois daquela noite, nada voltaria a ser como antes.

(Continua na próxima semana).

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.



João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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