A gastronomia materna é uma experiência que nenhum programa de culinária conseguiria retratar.

Antes de ser mãe, eu achava que cozinhar era escolher uma receita, separar os ingredientes e caprichar no tempero. Hoje eu sei que cozinhar para crianças é muito mais complexo. É quase um jogo psicológico. Porque o maior desafio não é preparar a comida… é descobrir o que elas vão querer comer nos próximos cinco minutos.

Eu passo um tempão fazendo um prato bonito. Arroz soltinho, feijão fresquinho, legumes coloridos, uma carninha bem temperada. Faço carinhas no prato, corto tudo em pedacinhos, decoro, deixo digno de foto. Sirvo com aquele orgulho de quem acredita que finalmente acertou.

A criança olha para o prato, olha para mim e diz, com a maior tranquilidade do mundo:

— Eu queria pão.

Pão.

Depois de uma hora na cozinha.

Nessas horas eu penso que talvez eu devesse ter economizado todo o trabalho e servido apenas um pãozinho francês. Possivelmente eu receberia mais elogios.

Mas a gastronomia materna reserva desafios ainda maiores.

Como a banana.

Você entrega a banana inteira.

A criança queria cortada.

No dia seguinte, querendo mostrar que aprendeu a lição, você entrega a banana cortada.

Pronto.

O mundo acabou.

Porque justamente naquele dia ela queria a banana inteira.

E ela chora.

Mas não é um chorinho qualquer.

É um choro dramático, sofrido, daqueles que fariam qualquer pessoa acreditar que aconteceu uma grande tragédia. Tudo porque alguém ousou cortar uma banana sem autorização.

E você fica ali, segurando a faca, tentando entender em que momento da vida uma fruta passou a determinar o humor da casa inteira.

Outra coisa que ninguém conta é que mãe praticamente deixa de ter um prato só dela.

A nossa refeição passa a ser um verdadeiro buffet de sobras.

A gente come a batata que sobrou no prato de um, o pedacinho de frango que o outro não quis, duas colheradas de arroz daqui, um restinho de macarrão dali… e, quando percebe, já almoçou.

Almoçou de pé.

Na pia.

Entre uma colherada e outra.

Sem nem sentar à mesa.

E nem vamos falar daquele pedaço de pão já mordido, da fruta meio babada ou do biscoito amolecido que ficou na mão da criança e, por algum motivo que a ciência ainda não explica, acaba indo parar na nossa boca.

Porque mãe desenvolve um conceito completamente novo sobre higiene alimentar.

Existe também um hábito que poucas mães admitem em público: comer escondida.

Sim, isso acontece.

Às vezes tudo o que eu quero é um pedacinho de chocolate.

Então eu entro no banheiro como quem está participando de uma operação secreta. Fecho a porta, abro a embalagem bem devagar para não fazer barulho e penso: “Agora vai.”

Não vai.

Porque criança tem um radar infalível para doces.

Elas podem estar no quintal, no quarto ou na casa da avó. Basta o papel do chocolate fazer um leve barulho que aparece uma voz do outro lado da porta:

— Mãe… o que você está comendo?

Nessa hora, negar já virou instinto.

— Nada, meu filho…

Embora nós duas saibamos que essa resposta nunca convenceu ninguém.

A verdade é que a gastronomia materna não tem estrelas Michelin, nem pratos sofisticados, nem refeições servidas no horário certo.

Ela é feita de comida fria, de sobras, de improviso, de bananas cortadas do jeito errado, de pão que vence qualquer receita elaborada e de chocolates consumidos às escondidas.

E, por mais caótica que pareça, ela tem um ingrediente que nunca falta.

O amor.

Mesmo quando ele vem acompanhado de um prato cheio… que ninguém quis comer.

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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