O Tranca Rua
Conversa entre amigos tem suas peculiaridades e, muitas vezes, se fossem reproduzidos os diálogos textualmente, com certeza não pareceria crível a quem lesse ou ouvisse contarem.
Na semana passada, conversávamos sobre amenidades quando alguém comentou, com tristeza, que um familiar perdeu os movimentos das pernas. Transformou-se em PcD por causa de um acidente de trânsito. Apresentamos, os outros presentes à mesa, nosso apoio, dizendo que sentíamos muito e que esperávamos que o acidentado “melhorasse” tão breve quanto possível. A resposta foi que ele não voltaria a andar, pelo menos não da forma natural, com suas próprias pernas. Por outro lado, apesar dos pesares, entendia que aquilo teria sido a consequência de sua falta de “bom-senso”. Assim, contou a história do acidente para avaliarmos seu posicionamento quanto ao doloroso evento.
O Macedo (nome fictício, para proteger o acidentado) era daqueles que dirigiam lenta e distraidamente. Admirava a paisagem enquanto trafegava pela pista da esquerda, que, segundo todos os manuais para condutores de automóveis, deveria ser utilizada para ultrapassagem, especialmente quando se é lento. Sua morosidade, conforme ele se gabava, permitia até que atendesse o telefone ou verificasse as mensagens recebidas; pesquisasse rádios, focado no dial; ou até procurasse alguma música no pendrive. Isso sem contar que lia os anúncios textuais nos outdoors e trafegava um bom tempo olhando para eventual interlocutor com quem conversava nos bancos de passageiros, nos assentos ao lado ou atrás. Orgulhava-se de nunca ter sido multado por excesso de velocidade. Mas, também, despreocupado, ligava raramente a seta para as conversões.
E ainda dizia: “Para onde vamos todos nós, não precisa de pressa”.
Pelo menos mantinha o seguro em dia, porque esse acidente não foi o primeiro a que esteve sujeito. Há coisa de 3 ou 4 anos, fazia uma viagem curta naquele modelo “quase parando”, quando outro veículo apareceu atrás e piscou o farol, indicando que queria ultrapassar. Macedo olhou o velocímetro e viu que estava a 60 km/h numa pista de 80. Avaliou que a regra é, no mínimo, metade da máxima e continuou na pista da esquerda. O outro ultrapassou-o pela direita e retornou no processo conhecido como “fechada”. Macedo perdeu o controle, atravessou a pista e desceu a encosta ao lado da pista. Por muito pouco não caiu num abismo; porém, o carro sofreu sérios danos.
Em outro acidente similar levou outra “fechada” por trafegar na pista errada e, de novo, entrou na contramão. Tentou voltar para evitar uma batida frontal. Não deu tempo e o caminhão que vinha em sentido contrário, atingiu-o na porta traseira. Resultado: perda total e inúmeros ferimentos e hematomas.
Dessa última vez – Macedo sempre na velocidade de cágado – o motorista do veículo de trás piscou os faróis, buzinou, gesticulou, mas o aborrecido Macedo, hoje paralisado da cintura para baixo, disse ao seu passageiro, que agora está tetraplégico, que aquele motorista não era o dono da rua… Na verdade, Macedo, nem do carro e, quiçá(?), nem da arma que disparou contra o lento da esquerda.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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