Caminhar com os olhos
O dia em que a mente comandou o movimento: a revolução silenciosa das cadeiras de rodas controladas por inteligência artificial.
Quando meu sobrinho ingressou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – USP, parecia à maioria dos parentes próximos que tínhamos na família, um gênio. Desde criança, parecia diferenciado pela capacidade de aprender,pelo olhar atento e rapidez com que respondia aos estímulos cognitivos. Quando seu grupo de trabalho foi premiado por uma criação inovadora, a sensação de orgulho por ele foi ainda maior entre nós. Todavia, mesmo tendo se destacado entre os alunos naquele renomado instituto, optou por outra carreira. A mecânica, como informou, era o sonho de seu pai e ele o realizou. Agora era hora de trilhar seu próprio caminho. Assim, foi para o Reino Unido, como dizemos em Minas, “com a cara e a coragem”, levando a tiracolo apenas a bela jovem que acabara de desposar e que também sonhava desbravar novos horizontes. Diferente de Ícaro, alçaram voo perfeito e alto, com asas aquilinas, fortes e seguras.
Resgato, com emoção, essas memórias quando uma publicação recente envolvendo pesquisa e instituições sérias de ensino as estimula:
Alfredo encarou a escadaria da biblioteca pública com o habitual sentimento de derrota. Para quem tem deficiência motora severa desde a infância, três degraus equivalem a escalar o Monte Everest. O rapaz suspirou, ajeitou o corpo na cadeira de rodas e se preparou para o caminho mais longo, uma rampa lateral. Foi quando um estudante do [Instituto Federal de São Paulo (IFSP)] (https://www.facebook.com/tvitape/videos/alunos-e-professores-do-ifsp-desenvolvem-cadeira-de-rodas-automatizadao-estudant/1737053544005150/) o abordou com um sorriso amigável e um par de óculos bem incomum.
Aquele jovem desconhecido explicou que o país acabava de registrar importantes avanços históricos na inclusão. Entre eles, o desenvolvimento de protótipos nacionais de cadeiras automatizadas comandadas por movimentos da cabeça e Inteligência Artificial. Concomitantemente, novas tecnologias globais de tração elétrica prometiam transformar modelos manuais em veículos ágeis em menos de 10 segundos. Curioso e um pouco cético, Alfredo aceitou o desafio de testar o equipamento. Ele colocou o sensor na cabeça e olhou para cima.
Todos os presentes na calçada prenderam a respiração, esperando que a cadeira avançasse em direção aos degraus e colidisse de forma desastrosa. A quebra de expectativa foi imediata: o dispositivo não subiu a escada. Em vez disso, a cadeira recalculou a rota de forma autônoma por sensores ópticos. Ela guiou Alfredo suavemente até uma rampa lateral de acesso, que ele nunca havia reparado antes. Pela primeira vez na vida, ele não precisou tocar nas rodas ou pedir ajuda para entrar no prédio. O movimento nasceu apenas do seu pensamento.
A verdadeira inovação não está em criar máquinas que realizam o impossível, mas em usar a tecnologia para devolver às pessoas a liberdade de escolher o próprio caminho. O maior ensinamento dessa revolução silenciosa é entender que a acessibilidade real não resolve apenas barreiras de concreto. Ela elimina o isolamento invisível, provando que o potencial humano é determinado pela mente, e nunca pelas limitações de um corpo.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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