O JULGAMENTO QUE NÃO COMEÇOU
João Régis Magalhães
— Chegou o dia. Hoje finalmente saberemos se temos juízes em Brasília!
Nos últimos dias, aumentara muito a ansiedade de Benévolo. Desde que o ministro Fachin marcara a data para que o plenário da Suprema Corte decidisse sobre o encaminhamento das apurações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, Benévolo não pensava em outra coisa.
Naquela manhã, levantou da cama antes do sol nascer. Dormiu muito pouco. Passara grande parte da noite sem conseguir pregar os olhos. Os pensamentos não desistiam de perturbar o seu descanso.
Depois de uma ducha gelada e uma caneca de café preto, sentiu-se um pouco melhor. Folheou o jornal impresso do qual era assinante e não encontrou nenhuma notícia sobre o caso que já não tivesse lido na internet na véspera.
Coçou a cabeça.
— Por que eu continuo comprando este tipo de jornal?
Pensou um pouco.
— Acho que é pela tradição.
Consultou o relógio. Faltavam ainda pouco mais de três horas para a sessão começar. Pensou em aproveitar para dar uma caminhada. Desistiu. Teve medo de, no meio do caminho, não resistir e começar a correr para chegar logo. Da última vez que isso aconteceu, arrependeu-se amargamente. Machucou-se e ficou mais de 30 dias no estaleiro.
O ideal talvez fosse tentar voltar a dormir.
Fechou a janela com a cortina blackout e ligou o ar-condicionado do quarto. Depois de meia hora, desistiu. Os olhos fechavam e os pensamentos o inquietavam. Levantou-se. Olhou o relógio. Reagiu com uma careta. Resmungou. Puxou o ar e prendeu. Suspirou lentamente. Não sabia o que fazer para matar o tempo.
Foi até o jardim e olhou para o céu. Avaliou as nuvens. Era bem capaz que chovesse ainda naquela manhã. Deu um muxoxo.
— Dane-se! Eu preciso me ocupar.
E se pôs a molhar as plantas.
Depois de um tempo, a chuva começou a cair. Ele continuou com a mangueira ligada. Encharcado. Teve medo de se resfriar. Ou, na imaginação já descontrolada, de até pegar uma pneumonia. Largou a mangueira no chão de qualquer jeito e entrou em casa. Tomou outro banho. Agora de água morna. Demorou mais do que o costume. Vestiu-se lentamente e voltou à cozinha. Fez um café novo. O aroma impregnou seus sentidos. Sentou-se à mesa e saboreou lentamente o café.
Conferiu as horas. Ligou a televisão. Deu um sorriso nervoso.
— Respeitável público. Damas e cavalheiros. O espetáculo está prestes a começar!
Na sala de sessões do Supremo, todos os ministros estavam presentes. O presidente abriu a sessão.
Com a voz grave e contida, Fachin cumpriu a liturgia. Citou nominalmente cada ministro e lembrou os que, antes deles, haviam ocupado aquelas cadeiras. Disse que não poderiam entregar às gerações futuras um STF menor do que aquele que haviam recebido.
Em sua casa, Benévolo, diante da televisão, chegou a se emocionar com aquelas palavras.
— Puxa, não podia começar melhor!
E rememorou, com saudades, alguns dos ministros que haviam passado por lá.
Fez uma pausa e sorriu.
— Bons tempos aqueles, um Supremo em que podíamos confiar plenamente. A gente só valoriza o que não tem.
Sentado na poltrona predileta, tentava não se levantar para não perder nenhum detalhe da sessão. Mas a inquietação era maior do que sua tentativa de se manter parado. Levantava-se apreensivo e tornava a se sentar, em um vai e vem de senta-levanta. Até que desistiu e ficou de pé, como se estivesse assistindo a uma final por pênaltis de uma Copa do Mundo, com o Brasil em campo.
Queria acompanhar cada palavra, cada voto, cada movimento dos ministros. Afinal, depois de tanta espera, a questão parecia simples e objetiva para Benévolo: deveriam ou não abrir uma investigação contra Alexandre de Moraes diante das denúncias e dos elementos apresentados pela Polícia Federal?
Era a resposta que Benévolo esperava ouvir. Mas não foi isso que ouviu.
A sessão avançava e o mérito permanecia intocado. Em vez de discutir se havia ou não motivos para investigar Moraes, os ministros mergulharam em uma sucessão de questões processuais. Vieram a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, os argumentos de um lado e de outro, as interrupções, os apartes e as divergências. Bate-bocas, ofensas e graves acusações entre alguns ministros. O que parecia ser o caminho para uma decisão transformava-se, aos olhos de Benévolo, em uma longa discussão sobre o próprio caminho.
Benévolo coçou a cabeça pensativo.
— Tá parecendo que nem todos são iguais perante a lei.
Fez uma pausa.
— Há uma diferença flagrante de tratamento. Se fosse um cidadão comum…
Sua expectativa foi diminuindo à medida que a sessão avançava. Começou a ter a sensação de que estavam encontrando maneiras de adiar o que realmente interessava. O processo parecia ter se tornado mais importante do que a questão que o justificara.
— Mas ninguém vai falar do que interessa?
Para Benévolo, não se tratava de condenar ninguém, muito menos de antecipar qualquer culpa. Tratava-se apenas de decidir o que fazer diante das denúncias e dos elementos apresentados pela Polícia Federal.
Só isso.
A impressão que ficava para Benévolo era a de que ministros que lhe pareciam próximos a Moraes encontravam sucessivos caminhos para evitar que o plenário chegasse ao mérito.
— Eita, o Supremo precisa de menos advogados e de mais juízes. Menos chicanas e ofensas, e mais compromisso em esclarecer o que realmente aconteceu. Nunca imaginei que chegariam a este ponto. Que tristeza!
A solenidade do início da sessão começava a perder o brilho. A frase de Fachin sobre não entregar às gerações futuras um Supremo menor do que aquele que haviam recebido ainda ecoava na cabeça de Benévolo. Só que, diante do que assistia, já não sabia se aquela sessão terminaria com uma decisão histórica ou apenas com mais um capítulo da interminável disputa em torno do processo.
Quando já não acreditava que o plenário chegaria a algum desfecho, veio outra pedrada: o pedido de vista de Flávio Dino.
Benévolo ficou olhando para a televisão. O mérito não havia sido discutido. A decisão que aguardara durante tantos dias não fora tomada. A ansiedade que o fizera acordar antes do sol havia desaparecido. Em seu lugar ficara uma amarga sensação de frustração. E muita tristeza.
Tanto esperar para, no fim, descobrir que o julgamento nem sequer havia começado.
A sessão caminhava para o encerramento quando Cármen Lúcia usou pela primeira vez a palavra. Disse estar envergonhada com o que havia acontecido e pediu desculpas ao povo brasileiro pelo “mal-estar cívico” provocado pelos acontecimentos no Supremo. Benévolo, que já acompanhava tudo com uma mistura de desencanto e irritação, emocionou-se. Havia alguma humanidade naquela fala que, para ele, contrastava fortemente com o que acabara de assistir durante horas.
— Talvez estejam faltando mais mulheres no STF — murmurou.
Foi seu último lampejo de esperança naquela sessão.
Olhou para a televisão e depois para o relógio. Lembrou-se da frase que dissera naquela manhã, cheio de expectativa:
— Hoje finalmente saberemos se temos juízes em Brasília!
A pergunta continuava sem resposta.
João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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