Saudade do tempo em que meu nome estava na lista

Por Pepperina

Eu não sei vocês, mas eu tenho saudade de uma coisa que parece simples, mas que hoje virou artigo de luxo: ser convidado para um evento sem precisar provar que você existe.

Antigamente era lindo.

Você recebia um convite e pronto.

— Seu nome está na lista.

Era quase uma declaração de afeto.

Você chegava na porta, dizia seu nome e, se o universo estivesse minimamente de bom humor, alguém conferia um papel e respondia:

— Pode entrar.

Acabou.

Não tinha QR Code.
Não tinha reconhecimento facial.
Não tinha confirmação em três etapas.
Não tinha “acesse o link abaixo para validar sua presença”.
Não tinha “clique em confirmar recebimento”.
Não tinha e-mail para confirmar o convite e, depois, outro e-mail para confirmar que você confirmou o primeiro e, por fim, uma mensagem no WhatsApp perguntando se você recebeu o e-mail que confirmou que você confirmou o convite.

Hoje, para ir a um evento, você precisa praticamente passar por uma investigação da Polícia Federal.

Primeiro chega o convite.

Você pensa:

— Que chique! Fui convidado!

Dois minutos depois, percebe que o convite vem acompanhado de um formulário.

Nome completo.

CPF.

Data de nascimento.

E-mail.

Telefone.

Documento de identidade.

Profissão.

Empresa.

Cargo.

Endereço.

Às vezes perguntam até o tamanho do sapato. Vai que o evento oferece um brinde e precisa saber se você calça 37 ou se é do time dos 43.

Você preenche tudo.

Aí vem:

“Confirme seu e-mail.”

Você confirma.

Depois:

“Para validar sua inscrição, clique no link enviado ao seu celular.”

Você clica.

Depois:

“Digite o código recebido por SMS.”

Você digita.

Aí chega:

“Apresente o QR Code na entrada.”

Nesse momento, você já não sabe mais se está indo para uma festa, uma palestra ou solicitando um visto para entrar em outro país.

E eu nem estou falando dos eventos que pedem reconhecimento facial.

Você recebe o convite, tira uma foto, manda o documento, confirma o CPF, cadastra a biometria…

Meu amor, se eu quisesse tanta intimidade assim, eu casava com o evento!

E tem uma coisa que me dá uma saudade danada:

“Seu nome está na lista.”

Que frase maravilhosa.

Curta. Objetiva. Democrática.

Não importava se você era empresário, jornalista, artista, amigo do aniversariante ou simplesmente aquele sujeito que ninguém sabe exatamente quem convidou, mas que apareceu.

Se estava na lista, estava na lista.

E pronto.

Hoje não.

Hoje você pode ser convidado, confirmado, cadastrado, pré-aprovado, validado, autenticado e ainda assim chegar na porta e ouvir:

— Senhor, seu QR Code não está carregando.

Aí você olha para o celular.

Sem internet.

Claro.

Porque a tecnologia tem um senso de humor impecável.

Você tenta abrir o e-mail.

A senha expirou.

Tenta recuperar.

O código vai para um número antigo.

Tenta atualizar.

O aplicativo pede reconhecimento facial.

Você está no escuro.

Ele não reconhece.

Você tira outra foto.

Nada.

O segurança olha.

Você olha para ele.

O celular olha para você.

E, naquele instante, você percebe que o evento já não quer mais a sua presença. Ele quer sua alma digital.

No passado, bastava uma folha de papel.

Hoje, para entrar numa confraternização, você precisa deixar metade da sua existência cadastrada em algum banco de dados.

E eu fico pensando: será que estamos sofisticando demais uma coisa que deveria continuar simples?

Porque, no fundo, convite é isso:

“Eu quero que você esteja aqui.”

Não deveria precisar de CPF para provar.

Nem de QR Code.

Nem de reconhecimento facial.

Nem de senha.

Nem de formulário com 47 campos.

Talvez esteja na hora de voltarmos às origens.

De sermos mais amigos.

Mais carinhosos.

Mais simpáticos.

E, principalmente, mais objetivos.

Porque tem coisa que tecnologia nenhuma conseguiu melhorar.

Aquela sensação boa de chegar na porta, falar seu nome e ouvir:

Está na lista. Pode entrar.

E entrar.

Sem senha.

Sem código.

Sem aplicativo.

Sem atualização pendente.

Sem “aceite os termos e condições”.

Só o seu nome.

Na lista.

E, convenhamos…

que saudade de quando estar na lista era suficiente para provar que a gente era esperado.

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