Andar com fé
Recentemente, as redes sociais foram palco de um absurdo inacreditável: uma voz pública tentou culpar as pessoas com deficiência pela inflação e pelo custo de vida. Em pleno século XXI, ver o preconceito ser reciclado dessa forma nos obriga a resgatar uma máxima do filósofo Edmund Burke: “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.
Ignorar discursos nefastos como esse seria o ideal se eles não encontrassem eco. No entanto, o preconceito se alimenta da desinformação, e é por isso que este artigo é um convite urgente à leitura e à reflexão profunda sobre quem realmente somos como humanidade. E importa, inclusive, sobremaneira, aprender a aprender e não apenas “passar os olhos” por um artigo ou livro na esperança de que o conhecimento se instale por simples osmose.
Para a ciência contemporânea, o verdadeiro marco do início da civilização humana não foi a invenção da roda, o controle do fogo ou o surgimento da agricultura. O nascimento da nossa humanidade está registrado em um fêmur fossilizado que foi fraturado e, posteriormente, curado. Na pré-história, uma fratura dessas significava a morte. Deixar alguém para trás para distrair predadores era a regra da sobrevivência brutal, mas que preservava algumas espécies. Aquele osso colado prova que, pela primeira vez, o grupo decidiu parar, proteger, cuidar e salvar um semelhante, mesmo colocando em risco a segurança daqueles que se dispusessem a tal gesto. A nossa civilização nasceu do acolhimento à vulnerabilidade, e não da eliminação dela.
Infelizmente, a história também caminha por extremos sombrios quando se afasta do amor. Na Grécia Antiga, bebês com deficiência eram sistematicamente eliminados. No século XX, a barbárie nazista institucionalizou o programa Aktion-T4, uma política de eugenia e eutanásia que exterminou cerca de 275 mil pessoas consideradas “inválidas”. Olhar para trás nos faz perceber o perigo de reativar lógicas segregadoras.
Imagine o vazio intelectual e artístico da nossa jornada se tivéssemos silenciado a potência de Jorge Luis Borges, Luiz de Camões, James Joyce, John Milton ou Aldous Huxley — gigantes da literatura que conviveram com a perda total ou parcial da visão. O que seria da trilha sonora do mundo sem a genialidade de Andrea Bocelli, Stevie Wonder, Ray Charles, José Feliciano ou da nossa doce Kátia? A deficiência nunca limitou a capacidade humana de traduzir a beleza e expandir os horizontes do pensamento.
O autor do ataque recente não terá seu nome citado aqui. Ele não merece o palco, mas sim o completo desprezo e as cortinas fechadas para o seu espetáculo sem luz. Do outro lado dessa ignorância, existem milhões de pessoas que vibram por aqueles que tornam o mundo um lugar mais bonito, como cantou Caetano Veloso: “Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo”.
Para quem insiste em enxergar a diferença como um fardo econômico, o artigo oferece a única resposta possível: o silêncio da nossa total indignação. É preciso “andar com fé” e descobrir como a história e a arte desarmam a intolerância.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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