Quase Dormiu com o Prefeito: As Confissões de um Carioca Perdido em Paris

José Teixeira

Em dezembro de 1964, lá se vão quase 62 anos, o jovem Paulo Roberto colou grau em Administração pela lendária Escola de Administração da FGV, no Rio de Janeiro. Ele tinha 24 anos, um orgulho danado do seu diploma e a certeza absoluta de que o mundo estava no papo. Nada poderia dar errado!

Seis meses depois, chutou o balde: pediu demissão do emprego e embarcou para Paris rumo a uma pós-graduação na prestigiada ENA (École Nationale d’Administration), a nata da elite francesa. A recepção inicial não podia ter sido mais calorosa. Ficou radiante e se sentiu em casa na mesma hora, o que é um feito e tanto para quem não arranhava uma única palavra em francês. Para ser bem sincero, se pescou uns 10% da conversa (que, convenhamos, foi praticamente um monólogo), foi muito. De qualquer forma, entendeu o recado principal: precisava se mandar para um centro universitário nos confins da zona sul de Paris, onde ficaria instalado como bolsista.

Na manhã seguinte, bem cedinho, foi implorar por socorro na recepção do hotelzinho modesto de estudantes onde passou a noite, em pleno Pigalle. Deu sorte: o recepcionista era macaco velho no trato com gringos desnorteados. Com uma paciência de monge, desenhou todo o mapa da mina: qual linha de metrô pegar, onde fazer baldeação e em qual parada saltar. Em suma, traçou a rota completa até a residência estudantil de Cachan, nos subúrbios parisienses. Saiu de lá revigorado e cheio de confiança!

A viagem durou cerca de doze estações. Agarrado ao mapa do metrô como quem se agarra a uma boia em alto-mar, foi contando as paradas, uma a uma, com o coração na mão. Até que finalmente a gravação anunciou: « Prochaine station: Cachan ». Bingo!

O trem freou. Nosso herói saltou com a mala e subiu as escadas rumo à rua, completamente inseguro sobre qual direção tomar. Na dúvida, resolveu dobrar na primeira via à esquerda. Andou carregando aquela bagagem pesada por uns dez minutos, se sentindo o ser humano mais solitário e exausto do planeta. O bairro era residencial e pacato até demais: nada de comércio, nem sombra de táxi e nem alma viva na calçada para pedir informação. «Perna pra que te quero, continue andando», ordenou a ele mesmo.

Foi quando, feito miragem no deserto, avistou uma placa salvadora: Hôtel de Ville!
Pensou, em festa: «Mas que maravilha! Se eu não achar esse maldito alojamento de jeito nenhum, é só dar meia-volta, me hospedar nesse tal de Hôtel de Ville por uma noite e descansar a carcaça até clarear as ideias. Bendito seja quem inventou a rede hoteleira francesa!»
Por pura sorte e providência divina, ele estava no caminho certo, e a residência de Cachan logo despontou no horizonte.

Um mês depois, já na sala de aula, engatinhando no idioma, veio o banho de água fria: descobriu que Hôtel de Ville não tem absolutamente nada a ver com lençóis limpos e serviço de quarto. É simplesmente a Prefeitura.


Até hoje ele dá boas risadas, temperadas com aquele arrepio frio na espinha só de imaginar a cena: ele, descabelado, largando a mala no balcão de atendimento do governo municipal e soltando no melhor francês macarrônico: «Olha só, doutor… eu estou sem reserva, mas será que rola um quartinho só pra passar a noite?

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