Em troca de migalhas
O best-seller de Dale Carnegie, lançado há 90 anos e ainda muito atual, é referência para muitos leitores e autores no nicho de autoajuda. Uma de suas passagens cita um garoto que queria comprar um apito exposto numa vitrine. Para tanto, guardou por longo período o dinheiro que ganhava com seus diversos trabalhos informais. Quando conseguiu “encher” seu cofrinho, foi até a loja e entregou o conteúdo ao vendedor, sem verificar o valor do apito, sem contar o dinheiro que estava entregando, sem avaliar a relação de custo-benefício. Ele queria o apito. E o obteve. O vendedor contou as moedas e viu que a soma pagaria por diversos apitos, mas o comprador já tinha saído apressado, muito satisfeito com a aquisição.
Nesses tempos sombrios em que vivemos, aos moldes daquele menino do livro, sequer paramos para pensar no quanto estamos pagando por nosso “apito”. Quanto nos custa o prazer menor e, quase sempre, momentâneo, em termos de vida, de tempo, de dignidade? E, frequentemente, por vontade própria, por decisão baseada em informações falsas, mas continuamente reiteradas por quem tenha interesse em nos “vender” alguma utopia, outra ilusão.
O nível de corporativismo observado nas mais altas cortes do país, em detrimento da justiça, do direito do cidadão, chega ao imponderável de ouvirmos, em rede nacional, que não se deve “expor um colega”, “ainda que ele tenha cometido ilícitos”, considerando que “até na Máfia existe ética”. É assustador. E, claro, para aqueles que percebem o futuro inóspito para o qual se caminha a passos largos, ver tanta gente que ainda defende tais barbaridades causa perplexidade. Especialmente porque quem sofrerá, como de hábito, as nefastas e mais contundentes consequências são os menos aquinhoados. Os que, afinal, foram doutrinados a não buscar seus direitos, a se acostumar com a miséria distribuída e a se acomodar na pobreza.
As PcD, desde longa data, especialmente no período que sucedeu à Segunda Grande Guerra, vêm buscando autonomia, respeito e participação social. As ações do Dr. Ludwig Guttmann abriram novas possibilidades para o desenvolvimento e sentimento de pertença a muitos ex-combatentes, sobreviventes da poliomielite e de outros vetores causadores de deficiência, especialmente física. No entanto, o que se percebe é que um percentual importante dessas pessoas vem optando pelo óbolo, pela migalha.
E não é apenas esse grupo. A cultura do comodismo e da inaptidão, insuflada por alguns meios de comunicação, cooptados pelas verbas de propaganda, desestimula o esforço, o aprendizado, o conhecimento, o senso de responsabilidade.
Atualmente há tantas informações disponíveis, gratuitas, à mão, mas a endorfina propiciada pelos conteúdos rasos se impõe por ser, a curtíssimo prazo, mais palatáveis. Descartáveis.
Não se trata de um mal desses tempos. A história se repete em um ciclo real e triste. Parentes e servos de Faraós, no antigo Egito se voluntariavam para serem enterrados com seu líder; parte da cúpula do monstro Hitler suicidaram-se para acompanhá-lo; venezuelanos, coreanos do norte, cubanos e muitos outros precisaram sofrer consequências desumanas até enxergarem o mal de suas escolhas.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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