NÃO SERIA NENHUMA GRANDE SURPRESA
João Régis Magalhães
Semana da eleição. Dias derradeiros até a urna. Candidatos frenéticos nas ruas e na mídia, buscando chamar a atenção. Tudo valia para conquistar a mente e o coração do eleitor. Revelações. Fake news. Denúncias. Casos requentados. Apelos emocionais. Vale-tudo. Era o sprint final. As pesquisas revelavam uma sociedade extremamente dividida. Um punhado de votos a mais poderia significar a vitória.
Benévolo era um eleitor experiente. Votara em todas as eleições depois da Constituição de 1988. Perdeu. Ganhou. Acreditou. Comemorou. Decepcionou-se. Chorou. Arrependeu-se. Voltou a ter esperança. E continuou. Nunca desistiu. Era, apesar de tudo, um democrata convicto.
Mas, naquela semana, estava estarrecido.
Nunca imaginara, nem em seus piores pesadelos, que o grande personagem daqueles dias decisivos não seria o candidato, o eleitor ou a própria eleição, mas as disputas entre os próprios ministros das mais altas cortes do país.
— Não dá para acreditar. Eles não saem de cena. Não aguento mais.
Benévolo desligou a televisão. Ficou alguns segundos olhando para a tela escura. Depois, tornou a ligá-la.
— Como era possível?
Poucos dias antes, o ministro André Mendonça determinara a retirada de uma publicação que associava Flávio Bolsonaro a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Dias depois, o ministro Flávio Dino derrubara a decisão. Na sequência, o ministro Luiz Fux suspendera a decisão de Dino.
— Afinal, quem decide?
Benévolo não esperou resposta.
— Um decide. Outro desfaz. Um terceiro suspende. É o presidente do Tribunal que entra para organizar a casa? É isso? Porque, do jeito que tá, tá tudo sem jeito.
E não era a primeira vez.
Poucas semanas antes, Mendonça e Dino haviam protagonizado outro vaivém de decisões envolvendo o comando da Polícia Federal. Fachin precisara intervir, suspendendo as decisões conflitantes. Na mesma ocasião, retirara Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news.
Benévolo acompanhara tudo.
Naquela sessão de 15 de setembro, esperara que o Supremo decidisse sobre o encaminhamento das apurações envolvendo Alexandre de Moraes. Mas o plenário acabou discutindo uma questão de ordem antes de chegar ao mérito, e o julgamento foi suspenso por um pedido de vista do ministro Flávio Dino. A decisão ficou sem data para ser retomada.
— Mas que Justiça é essa?
Parou diante da televisão e coçou a cabeça. Fez uma mea-culpa.
Talvez estivesse sendo injusto. Ministros tinham opiniões diferentes. Divergências faziam parte da democracia. O contraditório era saudável. A independência da Justiça era indispensável.
Sentou-se na sua poltrona predileta e colocou a mão no queixo. Pensou por alguns segundos e bradou em voz alta:
— Uma coisa era divergir. Outra era deixar tudo para depois. Eram coisas bem diferentes. Parece até briga de rua. Uma turma quer dominar a outra.
Foi então que uma pergunta diferente começou a incomodá-lo.
Não era mais sobre este ou aquele ministro. Afinal, ministros podiam divergir. Até mesmo errar. E mesmo tomar decisões que outros considerassem equivocadas. Isso fazia parte do jogo democrático.
Mas e quando pessoas diferentes, em decisões diferentes, acabavam produzindo o mesmo tipo de conflito? Tinha alguma coisa errada. Ah tinha!
Benévolo parou para pensar.
Talvez o problema não estivesse apenas nos homens. Talvez estivesse também nas regras que definiam até onde cada um podia ir, quem podia rever suas decisões e que consequências haveria quando os limites fossem ultrapassados.
Durante décadas, Benévolo votara acreditando que, pela urna, o cidadão recuperava, ainda que por um curto período, a sensação de estar no comando do próprio destino. Escolhia presidente, governador, senador e deputado. Depois, acompanhava, cobrava, reclamava. E esperava a próxima eleição.
Naquela semana, começou a enxergar a eleição de outra maneira.
Trocar ou manter os ocupantes do poder era importante. Mas seria suficiente?
Se as regras permanecessem as mesmas, os ocupantes não poderiam acabar reproduzindo os mesmos problemas?
— Muito provável — murmurou.
Benévolo ficou alguns segundos em silêncio.
— Talvez seja isso. Não basta trocar os personagens. É preciso mudar as regras.
Pensou mais um pouco.
— Afinal, escolher quem manda é uma coisa. Garantir que quem manda encontre limites é outra. Bem diferente.
A conclusão lhe pareceu incômoda. Talvez até um pouco ingênua.
Domingo chegou.
Benévolo levantou-se mais cedo. Tomou café sem pressa, vestiu-se e, antes de sair, procurou a pequena folha de papel que deixara sobre a mesa do escritório.
Era a sua cola.
Conferiu os números uma vez. Depois, outra. Deputado federal. Deputado distrital. Senador. Segundo senador. Governador. Presidente.
Para não deixar nenhuma dúvida, abriu o computador e conferiu novamente os nomes e os números de seus candidatos. Estava tudo certo. Agora tinha certeza.
Dobrou cuidadosamente o papel e o colocou no bolso.
Antes de sair, lembrou-se das últimas pesquisas.
A disputa estava concentrada nos dois candidatos mais bem posicionados. Benévolo imaginou que, na reta final, o voto útil poderia concentrar ainda mais a disputa. Se isso acontecesse, um deles poderia superar 50% dos votos válidos e vencer no primeiro turno.
Benévolo fez as contas.
— Não seria nenhuma grande surpresa! — exclamou.
A possibilidade de não haver segundo turno lhe pareceu, de repente, bastante razoável.
Ficou alguns instantes em silêncio.
Talvez a eleição ainda pudesse mudar mais do que imaginara. Quem sabe até os personagens que chegariam ao poder fossem diferentes daqueles que todos esperavam.
Mas a pergunta da semana voltou à sua cabeça: uma coisa era trocar os personagens. Outra era mudar as regras.
Levou a mão ao bolso e sentiu a pequena folha de papel.
A cola estava ali. Nela estavam os nomes e os números daqueles que poderia escolher.
Benévolo conferiu-a mais uma vez. Guardou-a no bolso e abriu a porta da rua. Olhou para os arredores. Fechou os olhos. Deu um longo suspiro e saiu.
Ia votar.
As regras continuavam esperando.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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