Foto: KATRIN BOLOVTSOVA

A lei virou opcional. O mercado não.

Em maio de 2026, a CVM tomou uma decisão que muita gente comemorou: retirou a obrigatoriedade futura de adoção das normas IFRS S1 e S2 para companhias abertas brasileiras. O regime passou a ser voluntário.

Se você trabalha com ESG, provavelmente ouviu alguém dizer: “viu? Não era obrigatório. Podemos deixar para depois.”

E é exatamente aqui que está o perigo.

O que mudou e o que não mudou

O que mudou: o governo não vai obrigar sua empresa a publicar relatório de sustentabilidade seguindo uma norma internacional. Pelo menos não agora.

O que não mudou: absolutamente todo o resto.

O banco continua usando critérios ESG para decidir a taxa de juros que sua empresa paga. O investidor continua perguntando como você gerencia riscos ambientais e sociais. O cliente grande continua enviando formulários de due diligence. O mercado continua exigindo comprovação de boas práticas.

A CVM afrouxou uma régua. Mas o mercado tem várias. E nenhuma delas afrouxou.

Por que as pessoas acham que podem parar

Existe uma lógica sedutora que aparece quando uma obrigação legal é removida: se não sou obrigado, não preciso fazer.

Essa lógica faz sentido quando a exigência vem apenas do governo. Mas em ESG, o governo é só uma das vozes. E não é a mais importante.

A voz que mais cobra ESG hoje não é do regulador. É do cliente. É do banco. É do investidor. E essas vozes não ligam para o que a CVM decidiu. Elas ligam para o risco delas.

Quando um banco analisa se empresta dinheiro para sua empresa, ele não consulta a resolução da CVM. Consulta o próprio modelo de risco. E nesse modelo, o ESG entra direto.

Quando um cliente grande avalia se continua comprando de você, ele não verifica se a lei te obriga a ter ESG. Verifica se você consegue responder ao questionário dele. E se não consegue, troca de fornecedor.

Foto: KATRIN BOLOVTSOVA

A pressão que não está no papel

A pressão que faz empresas implementarem ESG hoje não vem da legislação. Vem de três lugares que não dependem de lei nenhuma.

O cliente que precisa reportar. Sua empresa pode não ser obrigada a fazer inventário de emissões. Mas seu cliente grande é. E para ele reportar, precisa dos seus dados. Se você não tem, ele procura quem tem.

O banco que precisa precificar risco. Sua empresa pode não ser obrigada a ter governança estruturada. Mas o banco precisa saber quanto de risco você representa. E sem ESG, você é risco.

O investidor que precisa decidir onde coloca o dinheiro. Sua empresa pode não ser obrigada a publicar relatório de sustentabilidade. Mas o investidor precisa saber se sua operação é segura a longo prazo. E sem ESG, não é.

A CVM pode ter retirado a obrigação. Mas quem decide o destino do seu negócio, clientes, bancos, investidores, não retirou a exigência.

O que isso significa para você

Se você está implementando ESG na sua empresa e ouviu alguém dizer que não precisa mais porque virou opcional, aqui está a sua resposta.

A lei é o teto. O mercado é o piso. E o piso está mais alto que o teto.

Você pode escolher não fazer porque a lei não exige. Mas quando o cliente pedir comprovação, quando o banco cobrar dados, quando o investidor fizer perguntas, a resposta “não era obrigatório” não vai segurar o contrato.

A pergunta que importa não é “a lei me obriga?”. É “o mercado me exige?”.

E o mercado está exigindo cada vez mais. Não porque o governo mandou. Porque quem tem dinheiro, quem tem contrato, quem tem decisão não quer correr risco com quem não se preparou.

A verdade sobre opcionais

Coisas opcionais são opcionais até deixarem de ser. E em ESG, o que é opcional hoje vira exigência amanhã. Não porque a lei mudou. Porque o mercado mudou.

A CVM pode ter dado um passo atrás. Mas o mercado deu três passos à frente. E quem decidir esperar a lei voltar a obrigar vai descobrir que o mercado não esperou.

Artigo escrito por Mariana Borges, fundadora da Move’n Up inteligência em Gestão Sustentável

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