Talvez você não saiba

Muitas das lutas que a Pessoa com Deficiência – PcD – enfrenta, acredito, poderiam ser menos difíceis caso houvesse um ambiente propício ao seu desenvolvimento e estímulo à sua emancipação. Naturalmente, há que se reconhecer a impossibilidade fática em alguns casos pontuais, percentualmente inexpressivos. Para a grande maioria das PcD, no entanto, o problema se resume apenas a encontrar alternativas educacionais e laborais com foco na autonomia e utilização de suas capacidades intrínsecas.

Para essa essencial mudança de postura, importa que o entorno da PcD, aprenda a tratar essa pessoa como capaz para aprender e produzir. Reiterando a convicção de que certas condições são totalmente incapacitantes, convém lembrar que sempre se pode buscar alternativas ao sucesso, mesmo sob a carga de inúmeras formas de deficiência. Exemplos não faltam e são amplamente conhecidos.

Participando de inúmeras organizações que objetivam a integração e valorização das PcD, ficou claro um detalhe que se mostra fundamental entre a eterna dependência e a autonomia entre essas pessoas: o olhar de seu núcleo familiar e de seu entorno próximo. Aquelas pessoas que vivem sob a pecha de “coitadinhos”, condenados – sem culpa – a uma existência submissa, sem voz, advêm frequentemente de um ambiente de superproteção ou de total descaso. Aquelas que se desenvolvem, a despeito da própria deficiência, por outro lado, são tratadas de forma respeitosa, como pessoas de direitos e deveres. São apoiadas em seus projetos e protegidas sem a invasão de seu direito de escolha e de busca pela felicidade. São capazes de sonhar e de batalhar por sua realização. Ainda que a jornada seja desafiadora e injusta em determinados momentos estar apto e fortalecido para esses enfrentamentos torna os embates menos árduos ou penosos. E essa relação com as pessoas próximas tem essencial condão de subsidiar a materialização dos propósitos.

Nesses últimos anos, grande parte do complexo trabalho de buscar alternativas e oportunidades para as PcD se viu diante de um novo e voraz adversário. Bastante sutil, ele se apresenta aos incautos como aliado, mas instiga à acomodação e à dependência. E não se restringe apenas às PcD. Seus tentáculos, à guisa filantropia ou altruísmo, alcançam diversas camadas sociais, mormente o recorte menos aquinhoado, com distribuição de migalhas, promessas mirabolantes e irrealizáveis de um mundo perfeito, sem qualquer esforço. Porém, a contrapartida, obnubilada pelo brilho da cilada, se concretiza na dependência contínua.

Harriet Tubman foi uma mulher negra, nascida no período escravocrata americano, no estado de Maryland. Sofreu espancamentos e agressões, inclusive um traumatismo craniano decorrente do arremesso de uma pesada peça de metal dirigida a outra pessoa, mas que atingiu a ela. Conseguiu escapar ao cativeiro e lutou bravamente para libertar diversas pessoas dessa condição desumana. Mesmo sob o manto da adversidade, perseguida, construiu uma reputação consistente de coragem e disposição para enfrentar os desafios de ser mulher e negra num período de escravidão.

Talvez você não saiba, mas, como disse essa grande lutadora, Harriet Tubman, “O escravo mais difícil de libertar é aquele que aprendeu a amar as próprias correntes”.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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