Sabores e Saberes celebra a culinária afro-brasileira com programação gratuita em Brasília
Encerramento da segunda edição acontece em 4 de novembro, na Fundação Cultural Palmares, com palestra-performance da chef Makota Solange Borges, apresentações culturais, lançamento de livro e degustação de pratos tradicionais
A segunda edição do projeto Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana chega ao fim nesta quarta-feira (4), com uma programação dedicada à valorização da culinária afro-brasileira, da ancestralidade e dos conhecimentos preservados pelas comunidades tradicionais de matriz africana. O encontro acontece das 14h às 18h, no Espaço Mário Gusmão, na sede da Fundação Cultural Palmares, em Brasília, com entrada gratuita.
Entre os destaques está a participação da chef e Makota Solange Borges, da Bahia, que apresentará uma palestra-performance sobre gastronomia, memória e ancestralidade. O evento também contará com debates, apresentações culturais, lançamento de livro e degustação de pratos preparados pelos participantes das oficinas realizadas em Planaltina (DF) e Novo Gama (GO).
Idealizadora do projeto Culinária de Terreiro e do Festival do Dendê, Makota Solange é reconhecida pelo trabalho de valorização dos saberes gastronômicos afro-brasileiros. Durante o encontro, ela também autografará o livro Festival do Dendê, publicação que reúne receitas cedidas por chefs participantes de edições anteriores do festival. A iniciativa surgiu com o objetivo de arrecadar recursos para a aquisição de uma terra destinada às atividades da Cooperativa Mulheres Solares.
A trajetória de Makota Solange é marcada pela relação entre alimentação, identidade e resistência cultural. “Eu tinha uns cinco, seis anos de idade. Naquela época, acompanhada de mainha, nós tínhamos que fazer candomblé às escondidas, à noite”, recorda.
Para a chef, a possibilidade de compartilhar esses conhecimentos em espaços públicos representa uma conquista importante para as comunidades tradicionais. “Tudo que a gente vem pautando e conquistando, para mim, é extremamente importante”, afirma.
A convidada também chama atenção para a necessidade de reconhecer a origem dos conhecimentos tradicionais, muitas vezes incorporados a pesquisas acadêmicas sem a devida valorização das comunidades responsáveis por sua preservação.
Gastronomia, cultura e ancestralidade
O encerramento do projeto reunirá participantes dos dois polos formativos, que apresentarão seus tabuleiros e compartilharão experiências, receitas e conhecimentos adquiridos ao longo das atividades. O público poderá degustar pratos da culinária de terreiro e conhecer práticas alimentares que atravessam gerações.
A programação terá início com uma mesa de abertura mediada por Tata Luazi Luango, coordenador artístico do projeto, com representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura e do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
Entre os assuntos previstos estão o Tabuleiro da Baiana como patrimônio histórico-cultural, a Política Nacional Cultura Viva, a experiência do edital Sabores e Saberes 2025 e as políticas públicas voltadas às cozinhas solidárias e tradicionais.
Outro momento será dedicado ao diálogo entre Mãe Maria do Cerrado, do Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga, em Planaltina, e Yá Jussara de Oyá, da Casa de Oyá, no Novo Gama. A conversa abordará as experiências desenvolvidas nos territórios e a importância desses espaços para a preservação cultural e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
As manifestações artísticas também integram a programação, com apresentações de Tambores de Angola – Tumba Kumba Junsara, Sambadeiras de Roda – Manzu Kalla Muísu e Makudiá de Terreiro – Inzo Ngunzu Tubiá Diulo. As atrações aproximam gastronomia, música, dança e outras expressões culturais de matriz africana.
Para Tata Luazi Luango, diretor artístico do projeto e diretor do Instituto Kitanda Cultura de Terreiro, a iniciativa evidencia a importância das cozinhas tradicionais como espaços de produção e compartilhamento de conhecimentos.
“Acompanhar este percurso desde o edital de premiação e a Mostra Gastronômica em 2025 reafirma que a culinária de terreiro transcende o que está no prato. Ela opera como um verdadeiro banquete, um arcabouço de saberes e um sistema complexo de tecnologias sociais negras”, afirma.
Segundo Luango, as cozinhas comunitárias também desempenham um papel importante na promoção da soberania alimentar, da sustentabilidade e do fortalecimento dos territórios tradicionais.
Carol Peres, produtora cultural e presidente do Instituto Lente Cultural, destaca o protagonismo das mulheres e mestras de terreiro durante as atividades.
“O Tabuleiro da Baiana nos lembra que cultura, alimento e trabalho caminham juntos. Nesta segunda edição, vimos mulheres e mestras de terreiro transformarem a memória em formação, renda e partilha. A culminância na Palmares é o momento de dar visibilidade a esse protagonismo e reafirmar que valorizar os saberes tradicionais é investir no futuro dos nossos territórios”, ressalta.
Formação e valorização dos saberes tradicionais
Iniciada em agosto, a segunda edição de Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana promoveu atividades formativas em dois territórios tradicionais de matriz africana, reunindo detentoras de saberes ancestrais, educadoras, produtoras culturais e participantes interessados nas relações entre alimentação, patrimônio e sustentabilidade.
A primeira etapa aconteceu nos dias 22 e 23 de agosto, no Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga, em Planaltina. As vivências abordaram práticas culinárias tradicionais, segurança alimentar, organização comunitária e preservação da memória gastronômica afro-brasileira.
Nos dias 5 e 6 de setembro, as atividades seguiram para a Casa de Oyá, no Novo Gama, com oficinas sobre gastronomia tradicional, cozinhas comunitárias, sustentabilidade e alimentação em uma perspectiva afro-brasileira.
Entre os temas trabalhados estiveram o aproveitamento integral dos alimentos, a compostagem, o preparo do solo para agroflorestas e o uso de plantas alimentícias não colonizadas.
A vivência Comida Contracolonial, conduzida pela nutricionista e curadora alimentar Bruna Crioula, também propôs reflexões sobre os sistemas alimentares a partir de uma afroperspectiva, abordando o combate ao racismo alimentar e a valorização da alimentação como instrumento de identidade cultural e resistência antirracista.
Ao longo das atividades, o projeto buscou fortalecer a transmissão de conhecimentos entre gerações e estimular práticas relacionadas à geração de renda, à segurança alimentar e à sustentabilidade.
Realizado pela Fundação Cultural Palmares, por meio dos institutos Lente Cultural e Kitanda Cultura de Terreiro, o Sabores e Saberes encerra sua segunda edição com um encontro que celebra a diversidade da culinária afro-brasileira e o protagonismo das comunidades responsáveis por manter vivas essas tradições.
Serviço
Evento: Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana | Encerramento da 2ª edição
Data: 4 de novembro de 2026 (quarta-feira)
Horário: das 14h às 18h
Local: Espaço Mário Gusmão, na sede da Fundação Cultural Palmares – Brasília (DF)
Entrada: gratuita, sem necessidade de retirada de ingressos.