A volta às aulas pelo olhar das mães

Existe um fenômeno curioso que acontece todo fim de férias escolares.

Enquanto as crianças entram na contagem regressiva para aproveitar “os últimos dias de liberdade”, as mães também fazem uma contagem regressiva. Só que por motivos completamente diferentes.

Não é falta de amor. É excesso de convivência.

Porque chega uma hora em que a gente descobre que criança de férias não tem botão de desligar. Elas acordam com a bateria em 100%, fazem perguntas em sequência, discutem entre si por motivos que a ciência ainda não conseguiu explicar e, principalmente… comem.

Como comem.

Eu sempre achei exagero quando diziam que filho cresce nas férias. Hoje tenho certeza de que cresce mesmo. Não há outra explicação para a velocidade com que desaparecem o pão, o queijo, o iogurte, as frutas, os biscoitos e qualquer coisa remotamente comestível que exista dentro de casa.

A compra do mês? Dura uma semana. Com sorte.

E, se faltar comida, tenho a impressão de que eles começam a olhar para o reboco da parede com certo interesse gastronômico.

A última semana das férias também inaugura a tradicional maratona materna.

É uniforme que encolheu sem ninguém perceber. Tênis que resolveu apertar justamente agora. Mochila que precisa ser lavada. Material para conferir. Etiqueta para colar em absolutamente tudo. E a missão quase impossível de convencer uma criança que passou um mês dormindo à meia-noite de que agora ela precisa estar na cama às nove.

Tudo isso enquanto a mãe sorri.

Um sorriso discreto. Quase tímido.

Porque ela já consegue imaginar o café sendo tomado ainda quente. A casa respirando por algumas horas. O banheiro sem fila. O mercado voltando a durar mais de cinco dias. E, quem sabe, até conseguir responder uma mensagem sem ouvir um “mããããããe…” no meio da frase.

É um sentimento difícil de explicar.

A gente sente saudade antes mesmo de eles saírem de casa, mas também sonha com o silêncio que só existe entre o horário da entrada e o da saída da escola.

É contraditório.

É maternidade.

Claro que esse descanso tem prazo de validade.

Porque basta a rotina engrenar, a casa voltar aos eixos, a despensa permanecer cheia por mais de quarenta e oito horas e a mãe acreditar que finalmente retomou o controle da própria vida…

…que chega dezembro.

E, com ele, voltam as férias.

Volta a pergunta de cinco em cinco minutos:

— Mãe, o que tem pra comer?

Voltam os brinquedos espalhados pela sala, as almofadas em lugares que desafiam a lógica, os copos esquecidos pela casa e aquela movimentação que faz qualquer lar parecer um parque de diversões.

No fim das contas, a gente reclama.

Reclama da bagunça.

Da fome.

Do barulho.

Da correria.

Mas basta a casa ficar silenciosa por tempo demais para percebermos que esse caos também tem seu encanto.

E talvez esse seja o maior segredo da maternidade: passar o mês inteiro esperando a volta às aulas… e, quando elas finalmente chegam, já começar a contar os dias para ouvir novamente aquele velho chamado que atravessa a casa inteira:

— Mããããããe…

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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