Ansiedade

O coração dispara, o suor frio escorre e os olhos não desgrudam do relógio. Se você, como eu e muitos brasileiros, acompanhou a Copa do Mundo de 2026, conhece bem essa sensação. A ansiedade de um jogo de oitavas, de quartas, eliminatório, a iminência de um gol ou a disputa por pênaltis deixam qualquer torcedor sem fôlego. No entanto, enquanto bilhões de pessoas celebram a união global nos estádios de três países da América do Norte, uma ansiedade muito mais silenciosa e perigosa assombra os bastidores da saúde pública: o risco real do retrocesso sanitário global.

A monumental circulação de turistas internacionais reascendeu o alerta para doenças que muitos consideravam enterradas para sempre no passado. O maior exemplo dessa ameaça é a poliomielite, também conhecida como “paralisia infantil” ou “doença das manhãs”. Embora o mundo tenha registrado uma redução drástica de casos desde a década de 1980, o vírus ainda sobrevive e circula ativamente. O vírus selvagem (WPV1) permanece endêmico no Afeganistão e no Paquistão, somando dezenas de infecções anuais. Paralelamente, surtos isolados de poliovírus derivado de vacina (cVDPV) persistem em mais de 20 países da África, do Oriente Médio e da Ásia. Até mesmo grandes metrópoles ocidentais identificaram traços do vírus em redes de esgoto nos últimos meses. E ainda há o problema, para as pessoas que foram afetadas há mais de 30 anos, devidamente identificado: a Síndrome Pós-Pólio, CID B-91. Caracterizada pelo surgimento de uma nova fraqueza muscular (em membros afetados ou não), fadiga extrema, dor generalizada nos músculos e articulações, além da intolerância ao frio.

A verdadeira raiz da ansiedade médica não é a existência do vírus em si, mas a assustadora baixa adesão à vacinação infantil. A hesitação vacinal e a desinformação criaram “bolsões” de pessoas desprotegidas ao redor do globo. Em um cenário de hiperconectividade e aeroportos lotados, um único caso importado pode reintroduzir a paralisia infantil em países que não viam a doença há décadas. Se o sistema de defesa falhar por falta de imunização, o vírus avança rapidamente e pode promover surtos perigosos.

Diferente do futebol, onde o resultado ao final de cada partida é imprevisível, o combate à paralisia infantil tem uma tática infalível. A poliomielite não tem cura, e a única forma de prevenção é a vacinação sistemática. Importa observar ainda, que a pólio pode ser fatal em alguns casos. As vacinas, tanto injetável (IPV) quanto oral (OPV) são seguras, eficazes e salvam vidas. Manter a caderneta das crianças atualizada e garantir coberturas vacinais acima de 95% é o único escudo capaz de bloquear a transmissão. Outras ações podem reduzir o risco de infecção: manter uma higiene de boa qualidade e lavar as mãos sempre que usar o banheiro.

Não podemos vacilar na defesa, pois o adversário é resistente e implacável, faz ataques tão consistentes que só é perceptível quando a área já foi invadida e causou danos irreparáveis. Não deixe que a negligência mude o placar da nossa saúde, especialmente das nossas crianças. Proteja o futuro das crianças: vacine.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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