Distorções via narrativas

Uma postagem que circula no Instagram mostra alunos adolescentes sendo questionados, numa classe, acerca de qual suposto candidato receberia seu voto. Para balizar as respostas, algumas informações a respeito de cada
concorrente são disponibilizadas. Todas são verdadeiras. Todas são confirmáveis por uma pesquisa simples. Os currículos não são inventados… apenas manipulados por uma narrativa construída para subverter os valores e
induzir os incautos a uma conclusão simplória, superficial e, assim, conquistar o propósito encerrado na narrativa. É provável que a maioria dos leitores que acessem o citado aplicativo nesse artigo já tenha visto essa postagem. Os
imaginários candidatos são contemporâneos entre si, durante a Segunda Guerra Mundial: Franklin Delano Roosevelt, Winston Churchill e Adolf Hitler.

A dedicação e empenho de algumas pessoas, especialmente quando envolve pioneirismo, frequentemente sofre ataques, muitas vezes hediondos e indiscriminados, de várias fontes. Daqueles que lucram com o mal instalado; dos ignorantes que temem mudanças em razão de sua própria incompetência e incapacidade de se adequar ao novo; dos oportunistas que percebem na construção de barreiras ao desenvolvimento algum espaço de fala num
picadeiro diante de ribaltas e de plateias incultas.

A primeira vacina, por exemplo, chegou ao Brasil vinda da Europa, Portugal, em 1804, quando ainda não existiam refrigeradores nem métodos eficazes de conservação. O chamado “Método braço a braço” foi empregado, transferindo a imunidade entre pessoas durante o longo trajeto marítimo até chegar à costa da Bahia. O processo se fazia inoculando a infecção vacinal de uma pessoa para outra durante o percurso pelo Atlântico. Era brutal, mas funcionava.

Dez anos depois, em 1904, a proposta do grande sanitarista Oswaldo Cruz, de tornar obrigatória a vacinação contra a varíola, em decorrência do número epidêmico de infectados na capital, Rio de Janeiro, à época, causou uma histórica e histérica rebelião popular contrária ao projeto. Foram necessários outros quatro anos e outro grave surto da doença para conter os propaladores do caos.

Uma das ferramentas ainda hoje utilizadas pelos maniqueístas da opinião pública leiga é o “viés de otimismo na relação com o risco”. Na questão da poliomielite, observe-se, a chance de alguma criança ser atualmente infectada é mínima. Isso faz com que muitos adultos se descuidem do calendário de imunizações, colocando crianças em risco. Nestes casos é imprescindível ter em mente, fazendo uma analogia com o risco da miséria por negligência, citada
por Morgan Housel em “A Psicologia Financeira”, na qual demonstra que “as estatísticas são favoráveis na Roleta Russa”, no entanto, não é razoável “apegar-se às probabilidades positivas mesmo quando o lado negativo não é
aceitável sob hipótese alguma”. Quando se pode evitar e, ainda assim, se permite a infestação de uma criança pela pólio não há justificativa plausível.

Assim como é difícil entender que tantas pessoas busquem justificar submeterse a quem, sabidamente, age contrário ao próprio discurso em detrimento daqueles a quem jura proteger. Com uma narrativa falaciosa, incoerente com os fatos e até com a história, tirando-lhes o sustento, a dignidade e a capacidade de reagir a tamanho mal.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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