Espetáculo
Por Julyana Almeida
Chega maio e a maternidade entra oficialmente em estado de emoção descontrolada. Não importa o quanto a mulher tente manter a dignidade, a postura, o equilíbrio emocional construído ao longo do ano. Basta aparecer um bilhete escrito “mamãe” com três letras invertidas e um coração torto feito de cola colorida que pronto: acabou. A pessoa desmancha.
Outro dia fui assistir a uma apresentação de Dia das Mães na escola. E existe algo muito curioso nesses eventos: as mães começam a chorar antes mesmo de qualquer coisa acontecer. Nem acenderam as luzes ainda e já tem uma enxugando o olho com a manga da blusa.
A professora entra sorrindo, claramente à base de cafeína e sobrevivência, organiza as crianças em fila e anuncia:
— Agora, uma homenagem para as mamães.
Nesse momento, parece final de Copa do Mundo. Tem mãe respirando fundo. Tem avó filmando na horizontal errado. Tem pai segurando bolsa, garrafa d’água, casaco e a própria sanidade.
A música começa.
Ou, pelo menos, tenta começar.
Porque sempre dá algum problema técnico. O som falha, a caixa chia, a coordenadora corre de um lado para o outro e uma criança resolve sentar no chão bem no meio da coreografia porque simplesmente cansou da vida artística.
E aí acontece o verdadeiro encanto.
Tem um menino olhando para o teto como se estivesse refletindo sobre impostos. Outro dança adiantado uns três segundos. Uma menina faz todos os passos da música errada. E sempre existe aquela criança sinceríssima que decide acenar para a mãe durante a apresentação inteira, ignorando completamente o conceito de coreografia coletiva.
Mas a mãe?
A mãe está em prantos.
Porque, para ela, aquilo ali é Broadway.
Não interessa se o filho entrou atrasado, tropeçou no colega ou cantou “mamãe querida” no ritmo de funk proibidão. Aos olhos maternos, é o maior espetáculo artístico já produzido pela humanidade.
E talvez seja mesmo.
Porque a maternidade tem dessas coisas inexplicáveis. A gente passa o ano inteiro reclamando que não consegue ir ao banheiro sozinha, que dorme mal, que encontrou um biscoito dentro da bolsa grudado num lápis e numa meia misteriosa. Mas basta ouvir uma vozinha desafinada dizendo “eu te amo, mamãe” num microfone estourado, que o coração vira manteiga quente.
A verdade é que mãe não quer perfeição. Nunca quis.
Mãe quer o desenho torto, o passo errado, a flor de EVA mal colada, o abraço apertado e aquela dedicação desajeitada de quem ainda está aprendendo a existir no mundo.
Talvez por isso essas apresentações emocionem tanto.
Porque, no fundo, são exatamente como a maternidade: bagunçadas, cansativas, improvisadas… e absurdamente lindas.
Feliz Dia das Mães para todas aquelas que choram antes da música começar, guardam cada lembrancinha como um tesouro e transformam pequenos momentos em memórias gigantes. Que nunca faltem abraços apertados, risadas sinceras e amor — mesmo nos dias mais cansativos. Porque ser mãe é isso: viver um caos cheio de afeto… e ainda achar tudo lindo no final.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

